Cientistas criam som que reproduz a voz dos neandertais
Modelos digitais de voz e estudos anatômicos sugerem que os neandertais eram capazes de produzir sons complexos

Como soaria a voz de um neandertal? Essa pergunta, que ao longo de décadas pertenceu mais ao campo da especulação do que ao da ciência, começou a ganhar respostas mais concretas só recentemente, graças a avanços em modelagem digital e estudos anatômicos de fósseis. Pesquisadores vêm reconstruindo virtualmente o aparelho vocal desses antigos parentes humanos para tentar entender como eles poderiam ter falado há dezenas de milhares de anos.
Os neandertais (Homo neanderthalensis) viveram na Europa e em partes da Ásia entre 400 mil e 40 mil anos atrás. Embora por muito tempo tenham sido retratados como criaturas primitivas e pouco sofisticadas, descobertas recentes indicam que possuíam comportamentos complexos: fabricavam ferramentas elaboradas, realizavam enterramentos e possivelmente produziam arte. Um dos grandes debates entre os cientistas, no entanto, sempre foi se eles tinham ou não capacidade para linguagem articulada.
Recriando a voz
Para investigar essa questão, pesquisadores analisaram estruturas ósseas relacionadas à audição e à produção de som, incluindo o crânio e o osso hióide — uma pequena estrutura na garganta que desempenha papel fundamental nos movimentos da língua e da laringe durante a fala. Estudos indicam que a anatomia desses ossos nos neandertais é muito semelhante à dos humanos modernos, sugerindo que eles possuíam as bases físicas necessárias para produzir linguagem.
Com base nesses dados, cientistas criaram modelos digitais do trato vocal e simulações acústicas para estimar como seriam suas vocalizações. As reconstruções sugerem que os neandertais provavelmente tinham vozes mais profundas e um timbre mais áspero do que o dos humanos atuais, em parte devido à estrutura robusta do crânio e das vias respiratórias.
Ainda assim, a pesquisa também indica que eles seriam capazes de produzir uma ampla variedade de sons, incluindo frequências importantes para a formação de consoantes — elementos essenciais para a comunicação complexa. A capacidade auditiva dos neandertais também parece ter sido otimizada para captar essas frequências, o que reforça a hipótese de que eles possuíam algum tipo de sistema de comunicação vocal relativamente sofisticado.
Isso não significa necessariamente que a linguagem neandertal fosse idêntica à humana moderna. Alguns especialistas sugerem que, embora tivessem capacidade para falar, suas línguas poderiam ter sido menos estruturadas ou menos complexas do que as que usamos hoje.