Cálice de Ain Samiya traz nova leitura sobre a ordem cósmica na Idade do Bronze
Novo estudo revela que o cálice de Ain Samiya, de 4.000 anos, pode representar uma antiga visão de ordem cósmica no Oriente Próximo e revelar como esse cosmos era imaginado

E os arqueólogos estão reexaminando um dos artefatos mais fascinantes no sul do Levante, o cálice de Ain Samiya, um notável e intrincado vaso de prata que data da Idade do Bronze Médio.
O cálice foi descoberto há mais de 55 anos em um túmulo de grande importância nas colinas da Judeia. O artefato, de 8 centímetros, é responsável por instigar estudiosos há muito tempo com suas imagens agrupadas de cenas mitológicas.
Visão cósmica antiga
Com o passar das décadas, estudiosos acreditavam que as imagens estavam ligadas à epopeia babilônica da criação, o Enuma Elish. No entanto, um novo estudo propõe que os desenhos do vaso retratam uma narrativa diferente e muito mais antiga.
Para os pesquisadores, as imagens presentes no artefato apresentariam uma ideia de como os povos antigos imaginavam o cosmos tomando forma. Além disso, o cálice costuma ser considerado a única obra de arte verdadeira a sobreviver nesse período na região do Levante.
Duas cenas são observadas em seu exterior, com a imagem repleta de criaturas híbridas, motivos vegetais e símbolos celestiais. Porém, parte dela foi danificada, o que nos entrega uma história incompleta.
Do caos à ordem
Em um dos lados, uma figura quimérica ao lado de uma grande serpente é observada. A parte superior do corpo humano da figura se funde às pernas de dois touros, e uma pequena roseta, interpretada como um sol nascente, aparece entre seus membros.
Já a segunda cena é diferente. Duas figuras humanas são vistas levantando as extremidades de uma forma crescente que sustenta um sol radiante representado de frente.
A serpente muda de posição, passando a aparecer de maneira plana sob a barca celestial, não sendo mais um elemento dominante. Com a interpretação do novo estudo, essa sequência indica um universo ordenado, que surge após o caos ter sido controlado.

Em suma, em vez de ilustrar um mito específico, o estudo sugere que a imagem possa simbolizar a ideia mais ampla do antigo Oriente Próximo de organização e renovação cósmica.
Um objeto com longa história
De acordo com os pesquisadores, conforme repercutido pela Archaeology News, isso apresenta fortes paralelos com as crenças sumérias e acádias na divisão do mundo em dois hemisférios: um para os vivos e outro para os mortos, ambos sob o domínio do renascimento cíclico do sol, da lua e das estações.
Após passar por comparações iconográficas, é considerado que o responsável pelo desenho foi um artista do sul da Mesopotâmia que teria viajado para o norte durante o século 23 a.C. No entanto, o vaso provavelmente foi produzido no norte da Síria, onde o acesso à prata era mais fácil.
O destino do artefato traz teorias interessantes. Colocado em seu túmulo por volta de 2200 a.C., o cálice pode ter sido usado ritualmente como uma maneira de garantir que a alma do falecido fosse guiada ao longo do caminho cíclico do sol nascente.
Apesar das teorias em volta do cálice de Ain Samiya parecerem interessantes, estudiosos pedem cautela em conclusões definitivas. O novo estudo apresenta o objeto dentro de uma longa tradição de narrativas cosmológicas que se estende por todo o antigo Oriente Próximo.