Notícias / Idade Média

Até 60% dos textos feitos na Idade Média teriam desaparecido, de acordo com estudo

Novo estudo também aponta que 95% dos manuscritos medievais não chegaram até nós

Narrativas cavalheirescas francesas (anos 1100–1500) - Crédito: Camps, J.-B., Randon-Furling, J., & Godreau, U., PNAS Nexus (2026)

A Idade Média foi marcada por uma produção textual fascinante, mas um novo estudo publicado na revista PNAS Nexus indica que o que chegou até nós é apenas uma pequena parte de tudo o que os autores medievais escreveram. Segundo a fonte, cerca de 60% das obras literárias e mais de 95% dos manuscritos que as preservavam deixaram de existir ao longo dos séculos.

O estudo em questão focou em romances de cavalaria produzidos a partir do século 12, incluindo obras consagradas, como A Canção de Roland, além de inúmeros textos que hoje são conhecidos apenas por referências históricas. Aproximadamente 2.000 manuscritos foram analisados e, a partir dos dados obtidos, foram feitas combinações com modelos computacionais inspirados na ciência da complexidade.

Como explica o portal Archaeology News, antes da invenção da imprensa, todos os livros precisavam ser reproduzidos manualmente. Logo, cada cópia feita por um escriba podia apresentar pequenas diferenças em relação ao original, seja por erros involuntários ou por alterações intencionais. Com o passar das gerações, essas mudanças deram origem a diferentes “famílias” de manuscritos, a partir das quais os especialistas puderam reconstruir árvores genealógicas — conhecidas como stemmata — que revelam como os exemplares sobreviventes estão relacionados entre si.

Mas há um problema: essas árvores registram apenas os manuscritos que conseguiram chegar até os dias atuais, deixando de fora todas as cópias e até mesmo obras inteiras que desapareceram sem deixar descendentes documentais.

Foi justamente para preencher essa lacuna que os pesquisadores envolvidos no novo estudo desenvolveram simulações capazes de reproduzir o processo de produção, cópia e desaparecimento dos manuscritos ao longo de centenas de anos. Os modelos em questão avaliaram diferentes cenários envolvendo taxas de reprodução e destruição dos textos — e isso permitiu estimar quanto do patrimônio literário medieval pode ter sido perdido.

Padrões observados

Os resultados reproduziram padrões observados nas coleções reais de manuscritos e também explicaram uma característica frequentemente discutida pelos especialistas: enquanto algumas linhagens de cópias se expandiam e davam origem a diversos descendentes, outras desapareciam rapidamente, interrompendo completamente a transmissão de determinadas obras.

Uma das conclusões mais importantes do estudo é que os primeiros anos de existência de um texto eram decisivos para sua sobrevivência. Quando uma obra circulava em poucas cópias, bastava um incêndio, uma guerra, a deterioração do material ou mesmo o simples desinteresse dos copistas para que ela desaparecesse definitivamente. Logo, textos que conseguiram ser reproduzidos em maiores quantidades tiveram consequentemente mais chances de atravessar os séculos.

Essa mesma dinâmica ajuda a explicar por que os manuscritos originais de muitas obras famosas provavelmente não existem mais. No caso de títulos como A Canção de Roland, por exemplo, os exemplares preservados atualmente devem descender de versões posteriores. Infelizmente, talvez nunca conheçamos a versão original.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.