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Anomalia gravitacional foi registrada nas profundezas da Terra há quase 20 anos

Em novo estudo, pesquisadores descrevem anomalia no campo gravitacional da Terra entre 2006 e 2008 detectada por satélites; entenda!

Representação dos satélites GRACE originais / Crédito: Divulgação/NASA/JPL

Pesquisadores detectaram um sinal gravitacional peculiar na costa da África, que chamou a atenção da comunidade científica há quase duas décadas. Este fenômeno, conforme revelado em um estudo recente, sugere que algo inusitado ocorreu nas profundezas do planeta, distorcendo seu campo gravitacional.

Essa anomalia gravitacional, identificada por satélites, persistiu por cerca de dois anos sobre o Oceano Atlântico Oriental, atingindo seu pico em janeiro de 2007 — coincidindo com a data em que Steve Jobs apresentou o primeiro iPhone, embora não exista qualquer relação entre os dois eventos.

Os cientistas descobriram o sinal durante a análise de dados coletados pelos satélites do Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE), que operaram de 2003 a 2015. A anomalia gravitacional se manifestou simultaneamente a um “surto” geomagnético — uma alteração abrupta na variação do campo magnético terrestre.

Acredita-se que tanto a anomalia quanto o surto tenham sido provocados por um processo geológico desconhecido até então. Os resultados do estudo, publicados em 28 de agosto na revista Geophysical Research Letters, indicam que uma mudança na composição mineral pode ter causado uma rápida redistribuição de massa no manto profundo, próximo ao núcleo terrestre, alterando assim o campo magnético da Terra.

A coautora do estudo, Mioara Mandea, geofísica do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) na França e investigadora principal do projeto Gravimetria, Magnetismo, Rotação e Fluxo do Núcleo do Conselho Europeu de Pesquisa, expressou inicialmente dúvidas sobre a autenticidade do sinal.

Como costuma acontecer em pesquisas científicas, minha resposta inicial foi questionar: o sinal é genuíno, como pode ser validado e como deve ser interpretado?” relatou Mandea em e-mail ao Live Science. “Embora o resultado e sua publicação tenham sido certamente uma fonte de satisfação, o pensamento dominante foi considerar os próximos passos e as possíveis implicações”.

Mistério do planeta

Os satélites GRACE eram uma dupla de espaçonaves idênticas operadas em uma missão conjunta entre a NASA e o Centro Aeroespacial Alemão (DLR). De 2002 até esgotarem seu combustível em 2017, esses satélites foram utilizados para medir variações na gravidade da Terra. Eles se moviam em tandem ao redor do planeta, permitindo que os pesquisadores medissem a distância entre os dois objetos para identificar mudanças causadas por variações na força gravitacional da Terra, segundo a NASA.

As variações gravitacionais geralmente decorrem de alterações na concentração de massa — mais massa resulta em maior gravidade. Por exemplo, as correntes oceânicas deslocam massa pelo mar, levando a variações localizadas no campo gravitacional da Terra. No novo estudo, os pesquisadores analisaram os dados do GRACE em busca de sinais gravitacionais anômalos que poderiam ter origem nas profundezas da Terra, ao invés de serem gerados pela movimentação de água na superfície ou perto dela.

O sinal mencionado apresenta uma anomalia gravitacional orientada no sentido norte-sul, estendendo-se por aproximadamente 7.000 quilômetros — quase o comprimento total do continente africano — entre 2006 e 2008, conforme repercute o Live Science.

Ainda há muito a ser descoberto sobre o manto profundo da Terra e a fronteira entre a camada rochosa e o núcleo líquido do nosso planeta. A parte inferior do manto é predominantemente composta por silicato de magnésio (MgSiO). Os autores do estudo sugerem que as redistribuições de massa associadas ao sinal ocorreram devido a uma transformação de fase do perovskita para pós-perovskita nesta seção inferior do manto, onde a estrutura do silicato de magnésio muda sob pressão, deslocando massa nas profundezas da Terra.

Mandea enfatizou que a mensagem central do estudo é que a Terra é um sistema complexo e requer diferentes conjuntos de dados e métodos para entender seus processos internos. “A Terra é um sistema complexo que deve ser estudado usando diversos conjuntos de dados e métodos complementares de análise”, concluiu Mandea. “Essa sinergia nos dá a oportunidade de descobrir e compreender melhor processos ocultos no interior profundo da Terra.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.