Notícias / Arqueologia

Vilarejos pré-coloniais no Cerrado brasileiro praticavam a policultura, segundo novo estudo

Estudo contrasta com interpretações tradicionais que associavam as comunidades pré-coloniais apenas à caça e coleta ou à agricultura intensiva baseada na monocultura de milho

Eliane Chim selecionando amostras para análise de isótopos estáveis - Crédito: Divulgação/Mariane Pereira Ferreira

Um estudo publicado na revista Science Advances trouxe novas informações sobre a forma como populações indígenas ocupavam e produziam alimentos no Cerrado brasileiro antes da chegada dos europeus. Os resultados se chocam com interpretações tradicionais que associavam essas comunidades apenas à caça e coleta ou à agricultura intensiva baseada na monocultura do milho.

Para chegar às conclusões, pesquisadores analisaram vestígios de mais de cem indivíduos sepultados em 37 sítios arqueológicos distribuídos entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica. O trabalho reuniu informações obtidas por meio de isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio preservados em dentes e ossos humanos, além de novas datações por radiocarbono, restos vegetais, isótopos de animais e registros ambientais antigos.

Como aponta o portal Archaeology News, os resultados indicam que grupos que viviam em regiões próximas adotavam hábitos alimentares bastante distintos. Enquanto habitantes de grandes aldeias a céu aberto consumiam quantidades expressivas de milho, populações instaladas em abrigos rochosos dependiam de uma dieta mais diversificada, composta por diferentes recursos vegetais e silvestres, com menor presença do cereal. Como os dois grupos ocupavam ambientes semelhantes, os cientistas concluem que essas diferenças não podem ser atribuídas às condições naturais da região, mas sim a tradições culturais e modelos próprios de organização alimentar.

Populações complexas

Segundo a autora principal do estudo, Eliane Chim, as evidências mostram que o debate entre sociedades exclusivamente caçadoras-coletoras e agricultoras intensivas não explica a complexidade dessas populações. Em vez disso, o milho fazia parte de sistemas agrícolas variados, sendo cultivado ao lado de outras espécies, e não em grandes áreas dedicadas a uma única cultura.

Os pesquisadores classificam esse modelo como uma policultura baseada no milho. Nesse sistema, plantas cultivadas conviviam com alimentos obtidos na natureza, aproveitando o conhecimento acumulado sobre o ecossistema local. Essa combinação teria permitido manter a produtividade das áreas agrícolas ao mesmo tempo em que reduzia os riscos decorrentes da dependência de uma única lavoura.

As conclusões também oferecem uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento da agricultura na América do Sul tropical. Até então, muitos estudos associavam o surgimento de grandes assentamentos à agricultura intensiva. O novo trabalho sugere que parte das sociedades do Cerrado seguiu um caminho distinto, equilibrando cultivos agrícolas com o aproveitamento de recursos naturais disponíveis na paisagem.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.