Quatro anãs brancas ocultas são encontradas perto do Sistema Solar
Anãs brancas estavam escondidas pelo brilho de estrelas companheiras e podem indicar que há mais objetos semelhantes na vizinhança cósmica

Pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e da Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos, anunciaram a identificação direta de quatro estrelas anãs brancas localizadas a menos de 65 anos-luz da Terra. Os objetos, considerados remanescentes de estrelas semelhantes ao Sol, permaneceram ocultos por décadas devido ao brilho de estrelas companheiras do tipo anã vermelha.
A descoberta foi detalhada em estudo publicado na terça-feira, 14, na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. Segundo os autores, as quatro anãs brancas orbitam anãs vermelhas maiores e mais luminosas, o que dificultava sua observação direta por meio de telescópios convencionais. A confirmação só foi possível com o uso de observações em luz ultravioleta, capazes de revelar características invisíveis no espectro da luz visível.
As anãs brancas representam o estágio final da evolução de estrelas que esgotaram seu combustível nuclear e perderam suas camadas externas. O resultado é um núcleo extremamente denso, com dimensões próximas às da Terra, mas massa comparável à do Sol.
“Anãs brancas isoladas próximas geralmente são fáceis de encontrar, mas não conseguimos ver essas quatro estrelas diretamente em comprimentos de onda visíveis porque suas companheiras anãs vermelhas estavam ofuscando sua luz”, explica Mairi O’Brien, pesquisadora da Universidade de Warwick e primeira autora do estudo, em comunicado à imprensa. “Isso nos lembra que, mesmo em nossa própria vizinhança cósmica, ainda podemos encontrar surpresas se olharmos da maneira certa, nos comprimentos de onda certos.”
As anãs vermelhas já vinham sendo catalogadas há décadas nas regiões próximas ao Sistema Solar, mas a presença das companheiras permaneceu despercebida. A principal pista para a descoberta foi um fenômeno conhecido como oscilação radial, caracterizado por pequenas variações no movimento da estrela visível provocadas pela atração gravitacional de um objeto invisível em sua órbita.
Para confirmar a natureza desses corpos, os cientistas recorreram a dados obtidos pelo espectrógrafo ultravioleta do Telescópio Espacial Hubble. Embora anãs brancas emitam sinais facilmente detectáveis nesse comprimento de onda, a análise enfrentou outro desafio: as frequentes erupções produzidas pelas anãs vermelhas podem gerar assinaturas semelhantes às de uma anã branca.
Para contornar essa dificuldade, a equipe desenvolveu técnicas específicas de calibração capazes de distinguir os dois tipos de emissão. Com isso, foi possível comprovar a existência das quatro estrelas compactas ocultas.
G 203-47
Entre os sistemas identificados, um chamou atenção dos pesquisadores. Localizado a aproximadamente 25 anos-luz do Sol, o sistema G 203-47 já era conhecido devido à oscilação observada em sua estrela principal, mas foram necessários 27 anos de observações até que sua anã branca fosse confirmada. Com isso, o objeto passou a ser considerado oficialmente a nona anã branca mais próxima do Sistema Solar.
O comportamento desse sistema também intrigou os cientistas. Enquanto a anã vermelha leva cerca de 100 dias, ou mais, para completar uma rotação em torno do próprio eixo, ela orbita a anã branca em apenas 14,9 dias. A diferença é considerada incomum porque, em sistemas desse tipo, a interação gravitacional costuma sincronizar os movimentos por meio do chamado travamento de maré, mecanismo semelhante ao que faz a Lua apresentar sempre a mesma face voltada para a Terra.
“O que é fascinante é que G 203-47 não deveria estar girando tão lentamente se tivesse se formado da mesma maneira que sistemas semelhantes”, avalia David Wilson, pesquisador da Universidade do Colorado em Boulder e coautor do estudo.
Segundo os pesquisadores, essa característica indica que os sistemas binários podem ter seguido trajetórias evolutivas distintas. Alguns teriam passado por interações gravitacionais intensas durante sua formação, enquanto outros, como G 203-47, provavelmente experimentaram processos mais suaves, preservando esse comportamento incomum.
A pesquisa também permitiu atualizar o levantamento das anãs brancas existentes em um raio de 20 parsecs — aproximadamente 65 anos-luz — ao redor do Sol. Os modelos teóricos estimavam que essa região deveria abrigar entre quatro e cinco sistemas binários compostos por anãs vermelhas e anãs brancas. O total confirmado pela equipe, quatro sistemas, ficou dentro dessa previsão, segundo a Revista Galileu.
Apesar disso, os autores acreditam que novas descobertas ainda podem ocorrer. De acordo com o professor Pier-Emmanuel Tremblay, da Universidade de Warwick, apenas parte das anãs vermelhas próximas da Terra foi examinada em busca de companheiras ocultas.
“Apenas cerca de 30% das anãs vermelhas em um raio de 20 parsecs foram sistematicamente pesquisadas em busca de companheiras anãs brancas ocultas. Acreditamos que possa haver até nove ou dez sistemas binários adicionais em nosso ambiente estelar local que ainda não encontramos”, afirma Tremblay. “Se dedicarmos mais esforços à observação de anãs vermelhas, talvez encontremos mais surpresas como esta.”