Estudo associa morte da musa de Botticelli a estupro e tumor cerebral
Nova análise da morte de Simonetta Vespucci indica que a modelo renascentista sofreu ruptura de tumor após agressão sexual ou movimentos bruscos

A história da arte renascentista acaba de ser confrontada com uma nova e trágica perspectiva médica sobre o falecimento de uma de suas figuras mais icônicas. Simonetta Vespucci, a nobre aclamada em Florença por sua beleza, charme e intelecto, que serviu de inspiração para as obras-primas de Sandro Botticelli, como “O Nascimento de Vênus” e “Primavera”, pode ter sido vítima de um crime violento.
Embora a versão histórica tradicional sustente que ela faleceu de tuberculose aos 23 anos, em 1476, uma pesquisa da Queen Mary University de Londres propõe que a causa real foi uma apoplexia tumoral na hipófise. De acordo com os cientistas, esse sangramento súbito de um tumor cerebral pré-existente foi possivelmente desencadeado por um estupro ou por movimentos físicos exaustivos em bailes da época.

Diagnóstico médico atual
A análise contemporânea baseia-se nos relatos de uma agonia prolongada, marcada por sintomas que os médicos da era renascentista não conseguiram desvendar. Segundo o autor principal do estudo, Paolo Pozzilli, os registros de dores de cabeça intensas, vômitos, febre e alucinações antes de sua morte apontam para um tumor na glândula pituitária que inchou rapidamente.
Em declarações repercutidas pelo veículo Daily Mail, Paolo Pozzilli afirmou que “o movimento violento do estupro pode ter contribuído para acelerar a ruptura da bainha da glândula pituitária, que já estava tumoral, levando à sua morte”. Essa condição representa uma emergência médica súbita que explica o colapso físico da jovem de maneira mais precisa do que as teorias de séculos anteriores.
Gatilho da tragédia
A hipótese de uma agressão sexual ganha força com as investigações históricas de Giovanna Strano, pesquisadora cujo trabalho fundamentou a análise acadêmica. Ela aponta como possível agressor Alfonso II de Nápoles, o então Duque da Calábria, que possuía uma reputação de extrema violência contra as mulheres.
Conforme relatou Giovanna em declarações, “uma fonte contemporânea relata que, numa noite pouco antes de sua morte, Vespucci buscava refúgio do calor às margens do rio Arno, em Florença, quando foi estuprada por Alfonso”. Caso a agressão não tenha sido o único gatilho, os especialistas avaliam que o esforço físico em eventos sociais também seria fatal. Sobre essa possibilidade, Paolo explicou que “considerando que ela desmaiou durante um jogo de bola, o trauma mecânico de saltos repetidos pode ter acelerado o início da hemorragia”.
Evidências nas telas
As marcas da patologia de Simonetta Vespucci estariam registradas de forma permanente nos pincéis de Sandro Botticelli, identificadas por algoritmos de reconhecimento facial aplicados a cinco retratos da musa. Segundo Paolo Pozzilli, o famoso “olhar de Vênus” esconde uma condição clínica: “O posicionamento irregular dos olhos no Nascimento de Vênus, o estrabismo posteriormente considerado uma característica de piedade e beleza, pode ser causado por um tumor na hipófise”.

Outro indício surpreendente é a representação de lactação em uma das obras, um sintoma clássico de adenomas que secretam prolactina, embora a modelo nunca tenha tido filhos. A primeira autora da pesquisa, Domiziana Nardelli, destaca que cartas trocadas entre Piero Vespucci e o governante Lorenzo de Medici corroboram o diagnóstico de um tumor de crescimento rápido. Conforme explicou Domiziana, “o retrato alegórico mostra uma mulher amamentando e acreditamos que isso, junto com mudanças nas feições, revela a verdadeira aparência de uma paciente com um adenoma secretor”. Desse modo, o que antes era visto apenas como estética divina pode revelar-se agora como o testemunho silencioso de uma tragédia médica e humana.
*Sob supervisão de Éric Moreira