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Alces vivem no Colorado há séculos, aponta novo estudo

Novo estudo desafia versão oficial e aponta que os alces já habitavam a região do Colorado há milênios, muito antes de suposta introdução no século 20

Fotografia de alce / Crédito: Getty Images

Novas evidências arqueológicas e históricas colocam em xeque a versão oficial sobre a presença de alces no Colorado, nos Estados Unidos. Um estudo publicado em 12 de junho no periódico Journal of Biogeography conclui que esses grandes ungulados habitam a região há milhares de anos, contrariando a narrativa de que a espécie só teria se estabelecido no estado após programas de introdução realizados no fim da década de 1970.

Segundo os pesquisadores, os resultados demonstram que os alces fazem parte da fauna nativa das Montanhas Rochosas do sul e não podem ser considerados uma espécie invasora.

“Nossos resultados mostram inequivocamente que os alces não são uma espécie invasora”, afirmou William Taylor, arqueólogo da Universidade do Colorado em Boulder e coautor do estudo, à KKTV. “Na verdade, eles são tão nativos quanto qualquer outro animal pode ser nas Montanhas Rochosas do sul.”

Atualmente, estima-se que cerca de 3.500 alces vivam no Colorado. Entretanto, o Departamento de Parques e Vida Selvagem do estado sustenta que registros históricos desde a década de 1850 indicam apenas a passagem de animais vindos do Wyoming, sem que houvesse uma população reprodutora estabelecida.

De acordo com a versão oficial, esse cenário mudou em 1978, quando um programa conduzido por autoridades estaduais e federais transferiu cerca de duas dezenas de alces provenientes de Utah e Wyoming para o Colorado. Desde então, a população cresceu rapidamente, aumentando tanto os avistamentos quanto os conflitos com seres humanos e impactos ambientais, como a alimentação excessiva de salgueiros e álamos em áreas úmidas sensíveis do Parque Nacional das Montanhas Rochosas.

Esses fatores motivaram debates sobre a melhor forma de manejar a espécie e até questionamentos sobre sua presença natural no estado.

Fotografia de alce no Colorado / Crédito: Getty Images

Novo estudo

Os autores do novo estudo decidiram investigar essa narrativa reunindo diferentes tipos de evidências. Em parceria com lideranças indígenas ligadas ao patrimônio cultural da região, a equipe examinou aproximadamente 160 anos de documentos históricos, incluindo jornais, fotografias, arquivos de museus, tradições orais e relatórios arqueológicos produzidos ao longo de décadas, repercute a Smithsonian Magazine.

A análise revelou que vestígios arqueológicos apontam a presença de alces no Colorado desde, pelo menos, 7250 a.C., podendo remontar a cerca de 10500 a.C. Além disso, os registros históricos consultados indicam uma presença contínua dos animais desde os primeiros relatos escritos considerados confiáveis.

Segundo os pesquisadores, esses documentos registram repetidamente a presença de fêmeas e filhotes, um indício de que existia uma população reprodutora estabelecida muito antes das translocações realizadas no século 20.

O levantamento também identificou referências aos alces em diversas culturas indígenas com vínculos ancestrais às Montanhas Rochosas do sul. Os animais aparecem em narrativas tradicionais, elementos linguísticos, objetos e costumes dessas populações.

Entre os Arapaho do Norte, por exemplo, o alce recebe o nome hinenihii, expressão traduzida como “homem grande”, em referência ao porte do animal. Os pesquisadores também identificaram um termo mais antigo, see’iini3eet, relacionado ao formato largo e achatado do focinho dos alces, o que, segundo o estudo, aponta para uma convivência prolongada entre esse povo e a espécie ao longo de seu território ancestral.

Quando um termo como [invasivo] entra em cena… é extremamente importante que haja uma espécie de acerto de contas com a história profunda”, afirmou Taylor à Rocky Mountain PBS.

Apesar das conclusões, a pesquisa não encerra o debate. Kyle Patterson, especialista em gestão e relações públicas do Parque Nacional das Montanhas Rochosas, que não participou do estudo, afirmou que os dados utilizados pelo Serviço Nacional de Parques continuam indicando que não existia uma população reprodutora estável de alces no Colorado. Segundo ele, historicamente, a presença desses animais na região era muito rara.

Os autores esperam que as novas evidências contribuam para futuras decisões sobre o manejo da espécie. Segundo eles, reconhecer os alces como parte da fauna nativa pode incentivar políticas mais cautelosas e historicamente fundamentadas, evitando medidas extremas, como programas de erradicação.

“Em vez de tratar o alce como uma ameaça, instamos o Parque Nacional das Montanhas Rochosas e outras agências a trabalharem em parceria com tribos indígenas, paleoecologistas e o público para desenvolverem cuidadosamente planos de gestão historicamente fundamentados para este animal nativo do Colorado”, escreveram Taylor e os coautores John Wendt e Joshua Miller ao The Conversation.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.