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Descoberta de acampamento militar muda compreensão sobre legado de Alexandre, o Grande

Acampamento militar encontrado no Uzbequistão teria sido utilizado há mais de 2.200 anos durante a expansão da presença helenística na Ásia Central

Magnetograma da área levantada - Crédito: Esri, Maxar, Earthstar Geographics e a comunidade de usuários de GIS. Mapa por T. Tencer e P. Milo. De Stančo et al., Journal of Archaeological Science: Reports (2026)

Recentes escavações e levantamentos geológicos realizados na região de Iskandar Tepa, no sudeste do Uzbequistão, trouxeram novas revelações sobre um sítio que, até pouco tempo, era considerado apenas um pequeno assentamento antigo. Conforme pesquisa publicada no Journal of Archaeological Science o local teria sido, na verdade, um acampamento militar temporário do período greco-bactriano, utilizado há mais de 2.200 anos durante a expansão da presença helenística na Ásia Central.

Segundo o portal Archaeology News, para se chegar a essa conclusão foram combinadas diferentes técnicas de investigação, tais como magnetometria, radar de penetração no solo e imagens de satélite, junto às escavações arqueológicas. Tudo isso permitiu identificar estruturas enterradas que não eram visíveis na superfície.

Nova interpretação

A identificação de Iskandar Tepa, que fica situada na província de Surkhandarya, se deu no ano de 2017. Nas primeiras campanhas arqueológicas, os vestígios encontrados consistiam principalmente em grandes recipientes cerâmicos enterrados, o que sugeria um assentamento de pequenas dimensões e sem planejamento evidente. Mas as recentes análises mostraram que essa interpretação estava incompleta.

Os arqueólogos notaram a presença de um fosso defensivo que circundava o topo da colina por cerca de 400 metros. A estrutura delimitava uma área de aproximadamente 1,2 hectare e, conforme revelaram os estudos, possuía entre quatro e sete metros de largura e cerca de um metro de profundidade. Além disso, uma sequência de buracos para postes ao longo do fosso indica que o sistema defensivo provavelmente era complementado por uma paliçada de madeira.

Segundo os pesquisadores, esse tipo de estrutura difere das tradicionais fortificações permanentes construídas em tijolos de barro, comuns na região. Em vez disso, o formato corresponde ao de acampamentos provisórios erguidos por tropas em deslocamento, reforçando a hipótese de que Iskandar Tepa serviu como base militar temporária. Um exemplo semelhante já havia sido identificado em Boysari Tepa, na região histórica da Sogdiana, também interpretado como um acampamento de curta duração.

Anomalias subterrâneas

Os levantamentos geofísicos revelaram ainda mais de 90 anomalias subterrâneas distribuídas dentro e ao redor da área cercada, muitas das quais foram interpretadas como sepultamentos, que estariam concentrados principalmente nos lados leste e oeste do antigo acampamento. Como alguns túmulos avançam sobre a área antes ocupada pelas estruturas militares, os pesquisadores acreditam que o uso da colina mudou ao longo dos séculos.

As escavações sugerem também que o acampamento foi construído primeiro e que, posteriormente, durante o século 1 d.C., o local passou a funcionar como um cemitério. Apesar disso, os arqueólogos ainda investigam se parte dos enterros ocorreu enquanto o acampamento permanecia em funcionamento.

Outro aspecto importante revelado pela pesquisa diz respeito ao abastecimento de água. Os arqueólogos identificaram vestígios de um canal com aproximadamente 1,1 metro de largura e pelo menos 40 centímetros de profundidade, responsável por conduzir água de uma fonte localizada a vários quilômetros dali. Os grandes recipientes cerâmicos encontrados anteriormente provavelmente eram utilizados para armazenar essa água dentro do acampamento.

Data do assentamento

A descoberta de moedas cunhadas durante os reinados dos soberanos greco-bactrianos Diodoto II, Eutídemo I e Demétrio I. indica que o acampamento não pode ser anterior ao século 2 a.C., período em que os reinos helenísticos, formados após as campanhas de Alexandre, o Grande, dominavam amplas áreas da antiga Báctria e de regiões vizinhas.

Além de revelar novas informações históricas, o estudo também demonstrou a eficiência das tecnologias modernas usadas na pesquisa arqueológica em áreas semiáridas da Ásia Central. Entre elas, a magnetometria apresentou os melhores resultados, permitindo identificar o fosso defensivo, assim como estruturas de armazenamento, sepultamentos e parte do sistema hidráulico, que são praticamente invisíveis na superfície. Os pesquisadores observaram ainda que imagens de satélite obtidas anteriormente correspondiam a muitas dessas estruturas enterradas, o que poderá facilitar a localização de sítios semelhantes em futuras pesquisas.

As próximas escavações deverão esclarecer por quanto tempo o acampamento permaneceu ativo e qual foi sua importância dentro da estratégia militar dos reinos greco-bactrianos.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.