Poço romano revela pistas sobre mulher misteriosa que viveu há 2 mil anos
Localizado na atual Albânia, o chamado Poço de Junia Rufina, desempenhava um papel importante durante o governo do imperador Adriano

Novas revelações sobre um antigo poço estão fornecendo aos pesquisadores informações preciosas acerca de como teria sido a vida pública na cidade romana de Butrint há quase 2 mil anos. Um estudo recente indica que a estrutura, conhecida como Poço de Junia Rufina, desempenhava um papel importante naquela sociedade durante o governo do imperador Adriano.
O poço está localizado nas proximidades do Portão do Leão, na antiga cidade de Butrint, na Albânia, e foi descoberto por arqueólogos durante escavações realizadas no início do século 20. Desde então, uma breve inscrição em grego gravada na pedra desperta o interesse dos especialistas. Conforme destaca o portal Archaeology News, o texto registra apenas: “Junia Rufina, amiga das Ninfas”, em referência às entidades femininas associadas às fontes e às águas doces na tradição religiosa grega.
Contextualizando o monumento
Embora a inscrição revele muito pouco sobre a identidade de Junia Rufina, sem mencionar familiares ou cargos públicos, os pesquisadores conseguiram contextualizar o monumento dentro do desenvolvimento urbano do Épiro durante o domínio romano. Segundo o estudo, a obra integra um conjunto de intervenções que transformaram diversas cidades da região ao longo do século 2 d.C.
A nascente utilizada pelo poço, entretanto, é ainda mais antiga. Ela já era frequentada durante o período helenístico, quando os habitantes buscavam água diretamente no local. Com a chegada dos romanos, a área passou por uma grande reforma arquitetônica, recebendo paredes de pedra, arcos de tijolos e áreas pavimentadas que transformaram a nascente em um poço público permanente. Apesar das mudanças, a tradição de associar o local às Ninfas continuou viva entre os moradores.
Os autores da pesquisa relacionam essa construção ao programa de obras promovido por Adriano em diferentes regiões do Império Romano do Oriente. Durante seu governo, cidades receberam novos aquedutos, fontes, banhos públicos e sistemas de abastecimento de água. Além de melhorar as condições de vida da população, essas intervenções também simbolizavam prosperidade e prestígio, e Butrint parece ter acompanhado essa tendência.
Outro aspecto que chama a atenção é a escolha do idioma utilizado na inscrição. Apesar de Junia Rufina possuir um nome tipicamente romano, sua homenagem foi escrita em grego. Em períodos anteriores, inscrições públicas em Butrint costumavam ser registradas em latim. A mudança acompanha o fortalecimento da cultura grega incentivado por Adriano, tendência reforçada tanto pelo estilo das letras quanto pelo contexto histórico em que o monumento foi construído.
Origem de Junia Rufina
O estudo também investiga a possível origem social de Junia Rufina. Seu nome apresenta semelhanças com o da influente família romana Junii Rufini, conhecida por manter relações com integrantes da alta administração imperial. Não há comprovação definitiva dessa ligação, mas os pesquisadores consideram que a hipótese é compatível com o período e com o perfil da benfeitora.
Caso essa identificação esteja correta, Junia Rufina faria parte do grupo de mulheres da elite que passaram a financiar construções de interesse coletivo nas cidades romanas. Ao longo dos séculos, o monumento sofreu diversas modificações, sendo que, durante o período cristão, partes da estrutura foram reformadas e novas paredes foram incorporadas ao conjunto. Outras intervenções foram realizadas nas épocas bizantina e otomana, mas a alvenaria construída pelos romanos e a inscrição original seguiram preservadas.