China: o país que conteve o expansionismo japonês
Invadida pelo Japão desde 1937, a China enfrentou anos de guerra praticamente sozinha antes de receber apoio da URSS e dos EUA

Muito antes de a Segunda Guerra Mundial ser oficialmente deflagrada na Europa, em setembro de 1939, a China já vivia um conflito devastador. Desde 1937, o país enfrentava a invasão do Império Japonês na chamada Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada após o Incidente da Ponte Marco Polo, confronto que muitos historiadores consideram um dos verdadeiros marcos iniciais da guerra em escala mundial.
Naquele momento, a China encontrava-se profundamente fragilizada. Além da ofensiva japonesa, o país era consumido por uma guerra civil iniciada em 1927 entre o Kuomintang, ou Partido Nacionalista Chinês, liderado por Chiang Kai-shek, e o Partido Comunista Chinês, comandado por Mao Tsé-Tung. Apesar das profundas divergências políticas, nacionalistas e comunistas estabeleceram uma frente comum para enfrentar o invasor japonês, embora ambos estivessem enfraquecidos pelos anos de conflito interno.
A expansão japonesa, entretanto, havia começado ainda antes. Em 1931, após o chamado Incidente de Mukden, o Japão utilizou uma sabotagem ferroviária como justificativa para ocupar a Manchúria, rica região do nordeste chinês. A partir dali, consolidou posições estratégicas ao longo do litoral e iniciou uma lenta, porém contínua, penetração pelo interior do território chinês.
Sem capacidade militar suficiente para deter o avanço inimigo, a China parecia próxima do colapso. Nesse cenário, surgiu um aliado decisivo: a União Soviética. Movida menos por afinidade ideológica com o governo chinês do que pela preocupação com o expansionismo japonês em suas próprias fronteiras orientais, Moscou iniciou um amplo programa de assistência militar.
Resistência chinesa
Os soviéticos enviaram dezenas de tanques, mais de mil peças de artilharia, milhares de armas leves, centenas de aviões e milhares de veículos de apoio. Além do equipamento, destacaram centenas de conselheiros militares, milhares de voluntários e concederam empréstimos que somaram US$ 250 milhões da época — valor equivalente a aproximadamente US$ 4,7 bilhões em valores atuais.
O apoio não era fruto de solidariedade política. O Japão alimentava planos de expansão sobre o Extremo Oriente soviético, incluindo parte da Sibéria e da Mongólia. Fortalecer a resistência chinesa significava criar uma barreira contra essas ambições territoriais e evitar que o Exército Imperial pudesse concentrar forças diretamente contra a União Soviética.
Entre 1937 e 1941, Moscou manteve o fluxo de ajuda militar. Um dos elementos mais importantes foi o envio de mais de mil aeronaves, muitas delas pilotadas por voluntários soviéticos que utilizavam uniformes chineses para ocultar sua verdadeira nacionalidade. A estratégia buscava preservar formalmente o Pacto de Neutralidade assinado entre União Soviética e Japão em abril de 1941, evitando que a participação direta soviética provocasse uma ruptura diplomática imediata.
Esses pilotos participaram intensamente dos combates aéreos e obtiveram resultados expressivos contra a aviação japonesa. Em um dos episódios mais conhecidos, realizaram um ataque à principal base aérea japonesa em Taiwan, então colônia do Japão.
Segundo dados citados pela publicação Military.com, quando o auxílio soviético começou, a força aérea chinesa contava com apenas cerca de cem aeronaves obsoletas e enfrentava uma aviação japonesa numericamente muito superior e tecnologicamente mais avançada. O reforço enviado por Moscou alterou significativamente esse equilíbrio inicial.
O envolvimento soviético também se refletiu diretamente na Batalha de Khalkhin Gol, travada em 1939 na fronteira entre a Mongólia e a Manchúria ocupada pelo Japão. O confronto terminou com uma expressiva derrota japonesa, reduzindo o entusiasmo de Tóquio por uma ofensiva em larga escala contra o território soviético.
Esse resultado influenciou uma importante mudança estratégica dentro do alto comando japonês. Até então, parte significativa dos militares defendia a expansão para o norte da Ásia, mirando a Sibéria. Após Khalkhin Gol, ganhou força a corrente favorável à expansão para o sul, voltando-se para o Sudeste Asiático e, posteriormente, para o Oceano Pacífico.
Essa reorientação estratégica acabaria conduzindo à ocupação de territórios como Malásia, Birmânia, Indonésia e Filipinas, além do ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, evento que levou os Estados Unidos à guerra.
Contribuições estratégicas
Ao longo da guerra, a China participou de dezenas de operações militares contra o Japão, incluindo as três batalhas de Changsha, a Ofensiva de Inverno, a Campanha dos Cem Regimentos, a Operação Ichigo e a ofensiva final na Manchúria, em 1945.
Embora grande parte dessas campanhas tivesse caráter defensivo, elas obrigaram o Japão a manter um enorme contingente militar estacionado no território chinês durante anos. Esse desgaste limitou a capacidade japonesa de concentrar recursos em outras frentes do conflito.
Outro fator estratégico foi a produção chinesa de tungstênio, também conhecido como volfrâmio, minério fundamental para a fabricação de armamentos e munições perfurantes. Durante boa parte da guerra, a China foi o maior produtor mundial desse recurso, tornando-se importante fornecedora para os Aliados em troca de combustível e outros suprimentos.
Apesar da resistência, o custo humano foi devastador. Estima-se que a China tenha perdido aproximadamente 20,6 milhões de pessoas durante o conflito, sendo cerca de 3,6 milhões de militares e aproximadamente 17 milhões de civis. Apenas a União Soviética registrou um número absoluto de mortes superior entre os Aliados.
A participação chinesa também trouxe ganhos diplomáticos. Em 1943, durante a Conferência do Cairo, Estados Unidos e Reino Unido reafirmaram o compromisso de restaurar a soberania chinesa sobre os territórios ocupados pelo Japão, promessa concretizada após a rendição japonesa em 1945.
Entretanto, o fim da guerra não significou paz para o país. Com o fortalecimento militar tanto do Kuomintang quanto das forças comunistas durante o conflito, a guerra civil foi retomada. Em 1949, as tropas de Mao Tsé-Tung conquistaram a vitória definitiva, levando Chiang Kai-shek a refugiar-se em Taiwan, onde estabeleceu um governo nacionalista.
A resistência chinesa durante a Segunda Guerra Mundial costuma receber menos destaque do que as campanhas travadas na Europa ou no Pacífico. Ainda assim, o país desempenhou papel estratégico ao imobilizar milhões de soldados japoneses durante anos, influenciar mudanças na estratégia militar do Japão, servir de elo logístico para os Aliados e contribuir para o enfraquecimento gradual do Império Japonês.