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Filho de Zuzu Angel e familiares de vítimas da ditadura recebem certidões de óbito retificadas

Em evento no Rio de Janeiro, Ministério dos Direitos Humanos entrega 95 documentos que reconhecem a responsabilidade do Estado em mortes políticas

Zuzu Angel ao lado dos filhos Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Stuart Angel está entre as vítimas da ditadura militar cujas certidões de óbito foram retificadas. Foto: Divulgação/Instituto Zuzu Angel.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) promoveu nesta terça-feira, 30 de junho de 2026, um dos atos mais significativos de sua atual gestão no Rio de Janeiro. A 8ª Solenidade de Entrega de Certidões de Óbito Retificadas, realizada no Teatro do Espaço Cultural do BNDES, devolveu a dignidade histórica a 95 famílias de vítimas da ditadura militar brasileira. O evento não apenas cumpre formalidades burocráticas, mas atua como um bálsamo para feridas que permaneceram abertas por mais de meio século, ao substituir documentos que omitiam ou falsificavam as circunstâncias de mortes ocorridas entre 1964 e 1985.

Resgate da verdade

A retificação dos registros civis é uma vitória da persistência de familiares e defensores dos direitos humanos. Conforme informações publicadas pelo jornal O Globo, a cerimônia é a quinta realizada apenas este ano e integra um calendário rigoroso voltado à promoção da justiça de transição no país. 

O portal oficial Gov.br destaca que a ação cumpre resoluções fundamentais da Comissão Nacional da Verdade e do Conselho Nacional de Justiça, que determinam que o Estado deve admitir sua culpa em documentos públicos. Agora, onde antes se liam causas genéricas ou inexistentes, o texto oficial afirma que a morte foi “violenta, não natural, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política”.

O luto transformado

Entre os nomes que reverberaram no teatro, a história de Stuart Edgar Angel Jones comoveu os presentes pela profundidade do seu simbolismo. Estudante de economia e militante, ele foi sequestrado, torturado e morto em 1971 nas dependências da Aeronáutica, tornando-se um dos desaparecidos políticos mais emblemáticos do Brasil. Sua mãe, a renomada estilista Zuzu Angel, transformou o desespero do desaparecimento do filho em um grito internacional contra a opressão, usando suas passarelas para denunciar as atrocidades do regime. 

Ela previu o próprio fim em uma carta profética deixada ao jornalista Zuenir Ventura, na qual afirmava que, se aparecesse morta por acidente, seria obra dos mesmos assassinos de seu amado filho. A retificação do óbito de Stuart Angel encerra um ciclo de negação oficial que sua mãe tanto combateu até ser também vitimada pelo regime em 1976.

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Vozes ouvidas

A solenidade também prestou justiça à memória de outras figuras que marcaram a resistência brasileira. Receberam os novos documentos os familiares de Edson Luís de Lima Souto, o jovem de 18 anos cujo assassinato em 1968, no restaurante estudantil Calabouço, despertou uma onda de protestos pelo país. 

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O reconhecimento estendeu-se ao operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, morto sob custódia no DOI-CODI em 1976, e ao diplomata José Jobim, sequestrado e morto em 1979 após manifestar a intenção de expor esquemas de corrupção envolvendo a construção da usina de Itaipu durante o governo militar.

Compromisso com futuro

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, enfatizou durante o encontro que nomear o óbvio e o vivido é a única forma de garantir que o autoritarismo nunca mais se repita em solo brasileiro. De acordo com os dados da pasta, das 434 certidões consideradas aptas para retificação pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), 400 já foram corrigidas. 

A meta do governo federal é concluir a entrega de todos os documentos restantes, reafirmando o compromisso do Estado com a memória e a reparação. Para os filhos, netos e irmãos presentes no Rio de Janeiro, o papel timbrado que agora seguram nas mãos representa o reconhecimento oficial de que seus entes queridos existiram, lutaram e que sua história, finalmente, foi contada com a verdade.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.