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Agricultores neolíticos da Polônia cultivavam sem destruir florestas há 5.600 anos

Resultados de novo estudo contrastam com visão predominante de que a expansão agrícola no Neolítico esteve necessariamente ligada a grandes desmatamentos

Modelo Digital de Elevação (DEM) (modelo de elevação LiDAR após GUGiK, 2025; processado no Blender 5.0) - Crédito: Divulgação/Żurkiewicz et al., Journal of Archaeological Science (2026)

Evidências analisadas em novo estudo apontam que agricultores neolíticos responsáveis pela construção de alguns dos maiores monumentos funerários da Europa preservaram grande parte das florestas ao redor de seus assentamentos

A pesquisa, publicada no Journal of Archaeological Science, concentrou-se em um cemitério da cultura do Vaso de Funil, localizado próximo à cidade de Sobota, nas proximidades de Poznań, no oeste da Polônia. Descoberto em 2018 por meio de levantamentos com tecnologia LiDAR, o sítio reúne cinco longos túmulos construídos com terra e pedra por volta de 3660 a.C. por grupos agrícolas conhecidos por construir monumentos megalíticos em diferentes regiões da Europa Central e do Norte.

Para reconstruir a paisagem da época, pesquisadores da Universidade Adam Mickiewicz combinaram dados arqueológicos com registros naturais preservados no solo. A equipe coletou testemunhos de sedimentos em uma área de turfa que, no passado, correspondia a um pequeno lago. As amostras continham pólen fossilizado, fragmentos de carvão vegetal e restos de plantas, que permitiram acompanhar as transformações ambientais ocorridas ao longo do tempo.

No fim, as análises revelaram que a agricultura e a criação de animais já eram praticadas mais de cem anos antes da construção do primeiro túmulo. Além disso, a presença de pólen de plantas cultivadas e de fungos associados ao esterco indica que campos agrícolas e áreas de pastagem existiam nas proximidades do cemitério. Outro detalhe é que um pequeno lago provavelmente separava parte dessas terras da área destinada aos sepultamentos.

O que a descoberta revela

Os resultados contrastam com a visão predominante de que a expansão agrícola no Neolítico esteve necessariamente ligada a grandes desmatamentos. Segundo os pesquisadores, os integrantes da cultura do Vaso de Funil removiam principalmente arbustos e árvores jovens, preservando as árvores mais antigas da floresta. O uso do fogo para limpar o terreno também foi limitado. Inicialmente, os incêndios ocorreram sobretudo em áreas de pastagem, enquanto a madeira passou a ser utilizada como combustível com maior frequência em períodos posteriores.

A abertura de pequenas clareiras permitia que mais luz solar atingisse as árvores maduras, que responderam produzindo grandes quantidades de pólen entre aproximadamente 3680 e 3540 a.C. Para os cientistas, esse aumento indica que as florestas antigas permaneceram saudáveis mesmo com o avanço das atividades agrícolas. A redução posterior na produção de pólen parece estar mais relacionada ao resfriamento do clima do que à ação humana.

Como destaca o portal Archaeology News, os pesquisadores classificam esse modelo de ocupação como uma forma de economia quase sustentável. Em vez de explorar continuamente as mesmas áreas, as comunidades provavelmente alternavam os locais destinados ao cultivo e ao pastoreio. Essa estratégia reduzia a necessidade de queimadas extensas e contribuía para a conservação da cobertura florestal.

Mas apesar da preservação da maior parte da floresta, a presença humana modificou gradualmente a paisagem. O corte seletivo de árvores e as atividades agrícolas aumentaram a erosão do solo, fazendo com que mais sedimentos fossem carregados para o lago vizinho. Com o passar dos séculos, o corpo d’água tornou-se progressivamente mais raso até se transformar em uma área úmida existente até os dias atuais.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.