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Ossos de camelos na Sérvia revelam rotas comerciais da Idade Média

Pesquisa na Fortaleza de Belgrado identifica pela primeira vez camelos híbridos nos Balcãs, indicando conexões com o Oriente durante o domínio otomano

Vista da Fortaleza de Belgrado, sítio arqueológico - Foto: Ivanbuki, CC BY-SA 4.0

A Fortaleza de Belgrado, situada estrategicamente no ponto de encontro dos rios Sava e Danúbio, na Sérvia, revelou segredos sobre as redes de comércio internacional que cruzavam a Europa Central e Ocidental séculos atrás. Um estudo recente identificou ossos de camelos datados entre os séculos 15 e 17, marcando a primeira evidência física comprovada desses animais nos Balcãs centrais e ocidentais durante o período medieval

A descoberta ajuda pesquisadores a reconstruir como as sociedades locais criavam, comercializavam e consumiam animais sob diferentes influências políticas e culturais, transformando a compreensão sobre a mobilidade regional.

Conexões com o Oriente

Os restos mortais encontrados incluem partes de perna, calcanhar e pé de animais que não são nativos da região. De acordo com informações publicadas pelo veículo Archaeology News, essa presença confirma a existência de rotas militares e mercantis de longa distância que ligavam a fortaleza a territórios orientais. 

Os animais eram peças fundamentais na logística da época, sendo utilizados por governantes húngaros e sérvios, além de servirem aos exércitos otomanos para o transporte de suprimentos e equipamentos pesados em terrenos difíceis.

Ciência revela hibridismo

Para identificar as espécies com precisão, a equipe de cientistas utilizou uma técnica avançada de espectrometria de massa conhecida como ZooMS, que analisa proteínas de colágeno preservadas nos ossos. O estudo, publicado no periódico Journal of Archaeological Science: Reports, revelou que os espécimes não eram camelos puros, mas híbridos criados para combinar resistência e força. Conforme explicam os arqueólogos e autores do trabalho, Nemanja Marković e Vesna Bikić, “a análise de proteínas produziu resultados diferentes das conclusões iniciais baseadas na forma dos ossos”, o que sugere que esses híbridos eram mais difíceis de identificar anteriormente.

Mudança cultural profunda

A análise zooarqueológica também apontou uma transformação radical na dieta e no manejo animal na fortaleza ao longo dos séculos. Enquanto no período romano o gado era abatido jovem para o consumo de carne, os registros medievais mostram que os animais viviam até a idade adulta para fornecer produtos secundários como lã e leite. Além disso, os ossos de porco desapareceram completamente dos depósitos do final da Idade Média. 

Os especialistas Jelena Bulatović e Miloš Ivanović sugerem que “esse padrão pode refletir regras alimentares introduzidas durante o domínio otomano”, quando o consumo de suínos foi proibido pela lei islâmica. A pesquisa, que contou também com a colaboração de Miroslav Marić e Michael Buckley, reforça o papel de Belgrado como um centro vital de integração entre o local e o exótico.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.