Notícias / Música

Manuscrito perdido de Mozart revela músicas inéditas em suas aulas em Paris

Documento encontrado na Biblioteca Nacional da França reúne exercícios de composição, peças inéditas e registros das aulas dadas por Mozart em 1778

Manuscrito encontrado de Mozart - Reprodução: YouTube/France Musique

Quando pesquisadores da Biblioteca Nacional da França analisavam um antigo caderno de música anônimo, não imaginavam que estavam diante de uma descoberta considerada uma das mais importantes das últimas décadas envolvendo Wolfgang Amadeus Mozart. O documento, divulgado pela instituição nesta semana, reúne exercícios de composição e peças musicais produzidos durante as aulas que o compositor ministrou em Paris, em 1778.

Com 44 páginas, o manuscrito permaneceu desconhecido por séculos e oferece um raro retrato da rotina de Mozart como professor. O material contém exercícios destinados à harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, filha do duque de Guînes, além de composições para flauta e harpa que permaneceram fora do conhecimento público até agora.

Segundo Gilles Pécout, presidente da Biblioteca Nacional da França, a descoberta é relevante tanto por lançar novas informações sobre a última estadia de Mozart em Paris quanto por revelar detalhes concretos sobre seu trabalho como educador.

Descoberta aconteceu por acaso

O manuscrito foi encontrado em 2 de fevereiro durante uma análise rotineira conduzida por François-Pierre Goy, curador responsável pelas coleções musicais anteriores a 1800 da biblioteca francesa.

Enquanto examinava um caderno de música sem título e sem identificação, Goy reconheceu uma das caligrafias presentes no documento. A suspeita de que se tratava de Mozart levou o pesquisador a consultar a musicóloga Laurence Decobert, especialista na obra do compositor.

A autenticação definitiva ocorreu em abril, quando Armin Brinzing, diretor da Bibliotheca Mozartiana do Mozarteum de Salzburgo, confirmou a autoria dos registros atribuídos ao músico austríaco.

Exercícios mostram método de ensino de Mozart

Os especialistas concluíram que o caderno reúne exercícios de composição utilizados nas aulas oferecidas por Mozart à jovem Marie-Louise-Philippine de Guînes.

O documento inclui sete peças para flauta e harpa, além de atividades desenvolvidas durante o processo de aprendizagem da aluna. O pai da estudante, Adrien-Louis de Bonnières de Souastre, acreditava que a filha possuía talento excepcional e desejava que ela aprendesse a compor grandes sonatas.

Parte das composições foi escrita pelo próprio Mozart, enquanto outras páginas apresentam contribuições da estudante. Seis das peças estão completas, mas o último exercício permanece inacabado e as seis páginas finais do manuscrito continuam em branco.

Mozart criticava o talento da aluna

O material também dialoga com informações já conhecidas pelos historiadores.

Em uma carta enviada ao pai em 14 de maio de 1778, Mozart comentou as aulas ministradas à jovem francesa e lamentou a falta de criatividade musical da estudante. Segundo o compositor, ela tinha dificuldades para desenvolver ideias próprias, embora participasse dos exercícios propostos.

Essas observações ganham novo significado agora que os especialistas podem analisar diretamente os trabalhos realizados durante as aulas, repercute a Revista Galileu.

Ligação com obras já conhecidas

Os pesquisadores também identificaram uma conexão entre o manuscrito recém-descoberto e o famoso Concerto para Flauta e Harpa KV 299, encomendado pelo duque de Guînes em 1778.

Segundo a Biblioteca Nacional da França, os carimbos presentes no caderno coincidem com os encontrados em uma antiga cópia francesa da obra, redescoberta por especialistas em 2020.

Os dois documentos ajudam a confirmar a existência de conjuntos musicais confiscados da residência do duque durante a Revolução Francesa. O material acabou incorporado ao acervo da biblioteca no ano seguinte.

Obras voltaram a ser executadas

As aulas entre Mozart e sua aluna chegaram ao fim após o casamento de Mademoiselle de Guînes, em julho de 1778. No entanto, as músicas registradas no manuscrito ganharam nova vida recentemente.

As peças foram apresentadas pela primeira vez em tempos modernos durante uma performance realizada na sede da Biblioteca Nacional da França, em Richelieu, com músicos da Orquestra Filarmônica da Radio France.

Para Sibyle Veil, presidente e diretora-executiva da instituição musical, a oportunidade de executar uma obra esquecida de Mozart representa um momento excepcional para qualquer conjunto artístico.


*Sob supervisão de Éric Moreira