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A mãe que criou uma filha genial e a matou em seguida

Concebida como um experimento de eugenia, Hildegart Rodríguez tornou-se uma intelectual brilhante, antes de ser assassinada pela própria mãe

Mãe eugenia filha capa
Aurora Rodríguez (à esq.) planejou o nascimento da filha Hildegart (à dir.), com base em uma tese eugenista. Anos depois, a menina foi morta pela própria mãe - Domínio Público

Na madrugada de 9 de junho de 1933, um crime abalou a Espanha e rapidamente ganhou repercussão internacional. Aurora Rodríguez Carballeira, uma intelectual de 53 anos, matou a tiros a própria filha enquanto ela dormia em sua casa, em Madri. A vítima era Hildegart Rodríguez, uma jovem de apenas 18 anos que já havia se tornado uma figura conhecida no país graças à sua produção intelectual, atuação política e defesa de causas consideradas avançadas para a época.

Após o assassinato, a mãe não tentou fugir nem ocultar o crime. Pelo contrário. Ela procurou o advogado e amigo José Botella Asensi para confessar o que havia feito. Segundo relatos da época, contou os detalhes do homicídio com absoluta frieza e sem demonstrar arrependimento.

O que tornou o caso ainda mais perturbador foi a história que o antecedia.

Mãe eugenista

Décadas antes, Aurora havia concebido um projeto absurdo. Admiradora das teorias eugênicas, então populares em diversos círculos intelectuais do início do século XX, ela acreditava ser possível contribuir para o aperfeiçoamento da humanidade por meio da seleção e da educação rigorosa de indivíduos excepcionais.

Com esse objetivo, escolheu cuidadosamente o homem que considerava ideal para gerar uma criança. Segundo biógrafos, ela procurava alguém fisicamente saudável, inteligente e culturalmente instruído. Após engravidar, mudou-se para Madri e passou a seguir métodos que julgava adequados para garantir o nascimento da filha que imaginava.

Aurora queria uma menina porque acreditava que as mulheres possuíam um papel fundamental na transformação social. Em sua visão, apenas uma mulher excepcional poderia liderar mudanças profundas e influenciar as futuras gerações.

Em 9 de dezembro de 1914 nasceu Hildegart Rodríguez.

A filha prodígio

Desde os primeiros anos de vida, a criança foi submetida a uma educação extremamente rígida. Aurora controlava todos os aspectos de sua formação intelectual e dedicou-se integralmente a transformá-la naquilo que chamava de sua “obra”.

Os resultados foram impressionantes. Antes dos dois anos, Hildegart já sabia ler. Aos três, escrevia. Na infância, aprendeu inglês, francês e alemão. Sua rotina era dominada pelos estudos, praticamente sem espaço para brincadeiras ou experiências comuns da infância.

A adolescência consolidou sua reputação como prodígio. Aos 13 anos, já havia concluído etapas educacionais normalmente reservadas a estudantes muito mais velhos. Aos 14, ingressou no curso de Direito graças a uma autorização especial.

Paralelamente aos estudos, Hildegart iniciou intensa participação na vida pública. Tornou-se militante política, palestrante e escritora. Em poucos anos, publicou dezenas de artigos e 16 monografias sobre temas variados.

Entre seus principais interesses estavam a educação sexual, o controle de natalidade, o divórcio, a saúde sexual e os direitos das mulheres. Suas posições eram consideradas extremamente progressistas para a Espanha da década de 1930.

Aos 17 anos, concluiu o curso de Direito com distinção e iniciou simultaneamente os estudos de Medicina e Filosofia e Letras. Sua fama já ultrapassava os círculos acadêmicos, transformando-a em uma das jovens intelectuais mais conhecidas do país.

Mas por trás dessa trajetória extraordinária existia uma realidade muito menos admirável.

Abusos e pressões

Diversos relatos indicam que Aurora exercia controle absoluto sobre a vida da filha. As duas passavam praticamente todo o tempo juntas. A mãe acompanhava Hildegart em compromissos acadêmicos, eventos sociais e reuniões políticas. Dormiam inclusive no mesmo quarto.

A jovem que defendia publicamente a liberdade individual tinha pouca autonomia sobre a própria vida.

Com o passar dos anos, a relação com a mãe começou a se deteriorar. Hildegart demonstrava interesse crescente em construir uma trajetória independente, algo que entrava em conflito direto com o projeto idealizado por Aurora.

O crime hediondo

As razões exatas que levaram ao assassinato nunca foram completamente esclarecidas. Algumas hipóteses sugerem que a mãe temia que a filha estivesse se apaixonando. Outras apontam para convites recebidos por Hildegart para viajar ao exterior e desenvolver uma carreira própria. Também existem interpretações que relacionam o crime a divergências políticas ou simplesmente ao desejo da jovem de conquistar autonomia.

Segundo a biógrafa Carmen Domingo, Aurora enxergava Hildegart não como uma pessoa independente, mas como uma criação destinada a cumprir uma missão específica. Quando percebeu que a filha pretendia seguir um caminho diferente daquele que havia planejado, sua reação foi extrema.

Posteriormente, a mãe declarou que havia criado e formado Hildegart com um propósito definido e que ela não poderia se afastar desse destino.

O julgamento transformou-se em um acontecimento nacional. Além do impacto emocional do crime, o caso ocorreu em um período de intensa polarização política na Espanha. A defesa tentou demonstrar que Aurora sofria de graves transtornos mentais, enquanto a acusação sustentava que ela tinha plena consciência de seus atos.

Ao final, a Justiça concluiu que a ré era responsável criminalmente pelo assassinato e a condenou a mais de 26 anos de prisão.

Apesar da sentença, ela permaneceu pouco tempo no sistema prisional convencional. Em 1935, foi transferida para o hospital psiquiátrico de Ciempozuelos, nos arredores de Madri. Ali permaneceu internada até sua morte, em 1956.

Décadas depois, o caso continua despertando interesse de historiadores, psiquiatras e escritores. A história de Aurora e Hildegart reúne temas como eugenia, obsessão, maternidade, controle psicológico e emancipação feminina, tornando-se um dos episódios mais inquietantes da história espanhola do século XX.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.