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Hominídeos dominavam fontes de basalto há 780 mil anos, diz estudo

Análise de artefatos encontrados em Israel indica que hominídeos selecionavam cuidadosamente o basalto que seria usado na produção de ferramentas há 780 mil anos

Registro de coleta de amostras de fluxos de basalto nas proximidades do local / Crédito: Divulgação/N. Goren-Inbar

Pesquisadores identificaram que hominídeos que viveram há cerca de 780 mil anos no norte de Israel selecionavam cuidadosamente o basalto utilizado na fabricação de ferramentas, demonstrando um conhecimento detalhado da paisagem em que habitavam. A conclusão foi apresentada em um estudo publicado na revista Scientific Reports.

A investigação teve como foco o sítio acheuliano de Gesher Benot Ya’aqov (GBY), localizado no Vale do Jordão e considerado um dos mais importantes sítios pré-históricos da região. Escavações realizadas no local revelaram sucessivas ocupações humanas nas margens de um antigo lago, além de ferramentas de pedra, vestígios de animais e plantas e evidências antigas do uso controlado do fogo.

O basalto era uma matéria-prima essencial para os grupos humanos que ocuparam a área. A rocha vulcânica era empregada na produção de grandes instrumentos de corte, como machados de mão e fendedores. Estudos anteriores já haviam demonstrado que a fabricação dessas peças envolvia um processo complexo, que incluía a escolha de grandes placas de basalto, a criação de núcleos gigantes, a retirada de fragmentos e a transformação desses blocos em ferramentas acabadas.

Apesar do conhecimento acumulado sobre a produção dos artefatos, ainda permanecia uma questão em aberto: qual era a origem do basalto utilizado pelos antigos fabricantes de ferramentas?

Detalhes do estudo

Para responder à pergunta, os pesquisadores compararam a composição química dos artefatos encontrados em diferentes camadas arqueológicas com amostras de basalto coletadas em áreas próximas ao sítio. Também foram analisadas rochas obtidas por meio de perfurações profundas realizadas sob a região arqueológica, permitindo o acesso a antigos fluxos de basalto atualmente ocultos sob a paisagem.

A equipe examinou elementos principais, elementos-traço e elementos de terras raras presentes nas amostras. Com o auxílio de análises estatísticas, foi possível relacionar os artefatos a fontes geológicas específicas, em um processo comparável à identificação de impressões digitais.

Segmento de núcleo de basalto com vesículas preenchidas com minerais, formadas durante o estágio final da alteração do basalto / Crédito: Divulgação/N. Goren-Inbar

Os resultados mostraram que a maior parte das ferramentas foi produzida a partir de fontes localizadas muito próximas ao assentamento. Alguns afloramentos compatíveis foram identificados a aproximadamente um quilômetro de distância do sítio. Além disso, diversos artefatos apresentaram correspondência com fluxos de basalto enterrados sob a própria área de Gesher Benot Ya’aqov, formações atualmente invisíveis na superfície.

Segundo os pesquisadores, essas fontes soterradas ajudam a reconstruir aspectos de uma paisagem desaparecida ao longo do tempo. O sítio está situado na região da Falha Transformante do Mar Morto, uma área marcada por intensa atividade geológica. Movimentos tectônicos, erosão e deposição de sedimentos alteraram significativamente o ambiente ao longo de centenas de milhares de anos, fazendo com que formações antes acessíveis fossem encobertas ou eliminadas.

A pesquisa também identificou diferenças na escolha da matéria-prima de acordo com o tipo de ferramenta produzida. Os chamados núcleos gigantes apresentaram forte correspondência com fontes locais e enterradas, enquanto algumas lâminas de corte parecem ter sido fabricadas a partir de fluxos de basalto que não estão presentes nos afloramentos analisados. Para os autores, esse padrão sugere uma seleção deliberada das rochas, e não uma simples coleta de materiais disponíveis ao acaso.

Os resultados reforçam conclusões de trabalhos anteriores realizados no mesmo sítio, que já apontavam para técnicas avançadas de fabricação e planejamento na produção de ferramentas. De acordo com o estudo, características como tamanho, formato e estrutura interna das placas de basalto provavelmente influenciavam a escolha do material.

Outro aspecto destacado pela pesquisa é a continuidade dessas práticas ao longo do tempo. Os mesmos padrões de seleção de matéria-prima foram identificados em diferentes camadas arqueológicas, abrangendo dezenas de milhares de anos de ocupação. Essa consistência sugere a existência de uma tradição tecnológica duradoura, com conhecimentos transmitidos entre gerações, repercute o Archaeology News.

As descobertas indicam que os primeiros habitantes de Gesher Benot Ya’aqov possuíam um entendimento detalhado do ambiente ao seu redor. Eles conheciam a localização das fontes de basalto adequadas, diferenciavam materiais conforme a finalidade das ferramentas e mantinham essas práticas de forma contínua ao longo de extensos períodos, mesmo em uma paisagem sujeita a constantes transformações geológicas.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.