Matérias / Copa do Mundo 2026

De Pelé a Maradona: a rica história do lendário Estádio Azteca

Palco da partida de abertura da Copa do Mundo de 2026, o Estádio Azteca é onde mais ocorreram jogos da competição, e sediou momentos históricos para o futebol

Fotografia aérea do Estádio Azteca / Crédito: Getty Images

Nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, o início da Copa do Mundo coloca o México e o Estádio Azteca no centro dos holofotes do esporte global. Ao receber a cerimônia inaugural e o confronto entre México e África do Sul, a arena mexicana alcança um marco inédito: torna-se o primeiro e único estádio do mundo a sediar jogos de três edições diferentes do principal torneio do futebol mundial.

O feito reforça a posição singular do estádio na história do esporte. Antes da edição atual, o Azteca já havia sido palco central dos Mundiais de 1970 e 1986, competições que ajudaram a construir sua reputação como um dos cenários mais emblemáticos do futebol. O encontro entre mexicanos e sul-africanos também remete à estreia da Copa de 2010, disputada em Joanesburgo, quando as duas seleções empataram em 1 a 1 em uma partida lembrada pelo belo gol marcado por Tshabalala.

Com 19 partidas de Copa do Mundo realizadas ao longo de sua trajetória, o estádio detém outro recorde: nenhum outro palco esportivo recebeu tantos jogos do torneio. Embora a Fifa utilize oficialmente a denominação “Estádio Cidade do México”, a arena é conhecida por diferentes nomes. Entre os moradores da capital mexicana, o apelido mais popular é Colosso de Santa Úrsula. Para grande parte dos torcedores ao redor do planeta, porém, basta uma palavra para identificá-lo: Azteca.

Após uma série de reformas recentes, a capacidade do estádio foi ajustada para acomodar cerca de 90 mil espectadores, embora algumas estimativas apontem um número pouco superior a 80 mil lugares. Durante a Copa de 2026, a arena receberá cinco partidas. O torneio também entra para a história por reunir 48 seleções, número nunca antes alcançado, em uma competição compartilhada entre México, Estados Unidos e Canadá.

Fotografia do Estádio Azteca / Crédito: Getty Images

O Colosso de Santa Úrsula

A trajetória do Azteca começou na década de 1960. O projeto foi concebido pelos arquitetos mexicanos Pedro Ramírez Vázquez e Rafael Mijares Alcérreca, e as obras tiveram início em 1962. Foram aproximadamente quatro anos de construção até a inauguração oficial, realizada em 29 de maio de 1966, em um amistoso entre o Club América e o Torino, da Itália. O duelo terminou empatado em 2 a 2.

Naquele encontro inaugural, o brasileiro Arlindo dos Santos entrou para a história ao marcar o primeiro gol registrado no estádio. O feito garantiu ao jogador um lugar especial na memória do Club América, que o considera uma das figuras mais importantes de sua história.

Projetado inicialmente para comportar mais de 100 mil pessoas, o Azteca rapidamente se destacou entre os maiores estádios do mundo. Antes mesmo de receber uma Copa do Mundo, a arena já havia servido como palco de grandes eventos esportivos. Durante os Jogos Olímpicos de 1968, sediou partidas do torneio de futebol e recebeu um de seus maiores públicos históricos no confronto entre México e Brasil, com quase 120 mil espectadores presentes.

Tri e despedida do Rei

A consagração internacional definitiva veio em 1970. Naquele ano, o estádio recebeu a Copa do Mundo e testemunhou uma das campanhas mais celebradas da história do futebol. Liderada por Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, a seleção brasileira chegou à final diante da Itália com uma equipe repleta de craques, incluindo Gérson, Carlos Alberto, Tostão, Rivellino e Jairzinho.

Na decisão, disputada diante de uma multidão, Pelé abriu o placar aos 18 minutos ao concluir de cabeça uma jogada iniciada por Rivellino. A Itália ainda empatou com Roberto Boninsegna aos 37 minutos da primeira etapa, mas o segundo tempo foi dominado pelo Brasil. Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto ampliaram a vantagem e garantiram a vitória por 4 a 1. O resultado assegurou o tricampeonato mundial brasileiro e marcou a despedida de Pelé das Copas do Mundo de forma triunfal.

Pelé durante celebração da vitória da Copa do Mundo de 1970 / Crédito: Getty Images

A edição de 1970 também produziu outro capítulo histórico dentro do Azteca. Antes da final, o estádio recebeu a semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental, confronto que ficaria eternizado como o “Jogo do Século”. Após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, as equipes protagonizaram uma prorrogação extraordinária, na qual cinco gols foram marcados em apenas meia hora. Ao final, os italianos venceram por 4 a 3.

A magnitude daquele duelo foi reconhecida pela própria Fifa, que o definiu como “um dos mais magníficos trinta minutos que uma grande audiência já viu no futebol”. O confronto acabou imortalizado também em uma placa instalada nas dependências do estádio.

A “mão de Deus” de Maradona

Se em 1970 o Azteca foi cenário da consagração de Pelé, em 1986 testemunhou outro dos momentos mais marcantes da história das Copas. Naquele ano, o México voltou a sediar o torneio, e o estádio reassumiu seu protagonismo.

O episódio mais famoso ocorreu em 22 de junho, durante as quartas de final entre Argentina e Inglaterra. O contexto da partida era carregado de simbolismo devido às tensões ainda recentes provocadas pela Guerra das Malvinas, repercute a BBC.

Naquela tarde, Diego Maradona marcou dois gols que entrariam para a história do futebol. O primeiro nasceu de um toque irregular com a mão esquerda, não percebido pela arbitragem. Mais tarde, o próprio argentino definiria o lance como um gol marcado “com a cabeça de Maradona e a mão de Deus“.

Poucos minutos depois, veio o segundo gol. Em uma arrancada memorável, Maradona atravessou a defesa inglesa, driblando sucessivos adversários antes de balançar as redes. O lance foi posteriormente escolhido em votação promovida pela Fifa como o gol mais bonito da história das Copas do Mundo.

A Argentina venceu por 2 a 1, avançou no torneio e, posteriormente, derrotou a Alemanha Ocidental por 3 a 2 na final. Com isso, o Azteca tornou-se o único estádio do planeta a presenciar os títulos mundiais de Pelé e Maradona.

Fotografia da “mão de Deus” de Maradona, e o jogador argentino segurando a Taça da Copa do Mundo em 1986 / Crédito: Getty Images

A Copa de 1986 também ficou associada a outro fenômeno popular. Foi naquele Mundial que a chamada “ola” ganhou projeção internacional. O movimento coletivo realizado nas arquibancadas passou a ser relacionado diretamente à atmosfera criada pelos torcedores presentes no estádio mexicano.

Reformas, mudanças e eventos

Ao longo dos anos seguintes, o Azteca continuou acumulando episódios relevantes. Em 1999, recebeu a final da Copa das Confederações, vencida pelo México em uma emocionante vitória por 4 a 3 sobre o Brasil diante de mais de 110 mil torcedores. O resultado representou o principal título conquistado pela seleção masculina mexicana em competições oficiais organizadas pela Fifa.

Nem todos os momentos marcantes, porém, foram de celebração para os anfitriões. Em 2001, a Costa Rica derrotou o México por 2 a 1 nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. O resultado ficou conhecido como “Aztecazo” e representou a primeira derrota mexicana em casa na história da competição classificatória.

Para a Copa de 2026, o estádio passou por um amplo processo de modernização iniciado em 2024. As intervenções incluíram melhorias na infraestrutura tecnológica, ampliação da conectividade, substituição de assentos, aperfeiçoamentos voltados ao conforto do público e a instalação de um gramado híbrido.

Essas mudanças fazem parte de um processo mais amplo de reformas realizado ao longo das últimas décadas. Com o passar dos anos, setores tradicionais deram lugar a áreas VIP, camarotes e suítes corporativas, reduzindo gradualmente a capacidade total de público. As alterações provocaram críticas de torcedores que consideram que parte da identidade original da arena foi perdida.

O gramado também esteve no centro de controvérsias. Em 2018, uma partida da temporada regular da NFL programada para o estádio foi cancelada após reclamações sobre as condições do campo, que havia sofrido danos em decorrência de eventos não relacionados ao futebol.

Outra mudança que gerou debate foi a adoção do nome comercial Estádio Banorte, resultado de um acordo de patrocínio firmado com a instituição financeira de mesmo nome. O contrato, avaliado em aproximadamente 100 milhões de dólares, tem duração de 12 anos e permanecerá válido até 2037.

Apesar disso, durante a Copa do Mundo o regulamento da Fifa impede o uso de marcas comerciais nos nomes dos estádios. Por essa razão, a arena será oficialmente chamada de “Estádio Cidade do México” ao longo do torneio. Ainda assim, para torcedores mexicanos e admiradores do futebol em todo o mundo, o local continua sendo conhecido pelo nome que atravessou gerações: Azteca.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.