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Deserto do Atacama pode ser bem mais antigo do que o imaginado

Pesquisa sugere que o Atacama, região mais seca do Chile, mantém condições hiperáridas há cerca de 45 milhões de anos

Deserto do Atacama capa
Vista aérea do deserto do Atacama - Getty Images

O Deserto do Atacama, no norte do Chile, pode ter preservado suas condições extremas de aridez por muito mais tempo do que os cientistas acreditavam. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Colônia, na Alemanha, indica que o núcleo hiperárido da região já apresentava níveis extremamente baixos de umidade há aproximadamente 45 milhões de anos.

Os resultados da pesquisa, publicados em 20 de maio na revista científica Nature Communications, desafiam a compreensão tradicional sobre a formação do deserto. Até então, a maior parte da comunidade científica situava o início da aridez extrema do Atacama entre 10 e 20 milhões de anos atrás, durante o período Mioceno. A nova análise, porém, sugere que as condições hiperáridas surgiram muito antes, ainda durante o Eoceno Médio a Superior.

“Nova idade” do Atacama

Segundo os autores do estudo, a descoberta está relacionada a mudanças climáticas globais ocorridas após o chamado Ótimo Climático do Eoceno Inicial (EECO), considerado o período mais quente da era Cenozóica. Após essa fase de temperaturas elevadas, o planeta passou por um processo de resfriamento que teria reduzido significativamente a disponibilidade de umidade em áreas já naturalmente secas, favorecendo o estabelecimento de condições desérticas extremas.

Em comunicado divulgado pela Universidade de Colônia, o pesquisador Benedikt Ritter-Prinz afirmou que o atual núcleo hiperárido do Atacama existe desde o Eoceno Médio ao Superior, tornando a região uma das áreas secas contínuas mais antigas da Terra.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas utilizaram uma técnica conhecida como datação por nuclídeos cosmogênicos. O método permite medir isótopos raros formados quando raios cósmicos atingem minerais expostos na superfície terrestre. Ao todo, foram analisadas 135 amostras de quartzo, um número considerado expressivo para esse tipo de pesquisa.

A equipe concentrou a análise principalmente em concentrações de Neônio-21 (²¹Ne) e, em parte das amostras, também de Berílio-10 (¹⁰Be). Esses elementos são amplamente utilizados em estudos geológicos para determinar a idade de rochas e estimar taxas de erosão ao longo de milhões de anos.

Os resultados revelaram os maiores níveis de ²¹Ne já registrados pelos pesquisadores. Segundo a interpretação da equipe, isso indica que muitas das rochas permaneceram praticamente intactas na superfície por dezenas de milhões de anos, evidenciando a extraordinária estabilidade da paisagem local.

“Em regiões mais temperadas, a precipitação impulsiona a erosão e o transporte de sedimentos, remodelando constantemente a paisagem”, explicou o pesquisador Tibor Dunai, também da Universidade de Colônia. “Em contraste, o núcleo hiperárido do Atacama, com menos de 2 milímetros de precipitação anual, apresenta processos superficiais extraordinariamente lentos. A paisagem é efetivamente preservada ao longo de escalas de tempo geológicas.”

A pesquisa também lança uma nova perspectiva sobre os fatores tradicionalmente associados à formação do deserto. Até hoje, a elevação da Cordilheira dos Andes e a influência da fria Corrente de Humboldt eram apontadas como elementos fundamentais para o surgimento da aridez extrema da região.

Embora os autores não descartem a importância desses processos, os resultados sugerem que eles tiveram um papel mais relevante na intensificação e na expansão de condições secas que já existiam anteriormente. De acordo com o estudo, a hiperaridez do Atacama parece estar mais diretamente ligada ao resfriamento climático global ocorrido após o EECO.

Os pesquisadores também observaram que a evolução da aridez não ocorreu de forma uniforme em todo o deserto. Diferentes áreas apresentaram ritmos distintos de transformação ao longo do tempo, indicando que fatores locais também desempenharam papel importante na construção da paisagem atual.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.