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‘Meu pai peitou a Ditadura e por isso foi demitido da Seleção’, relembra filho de João Saldanha

Em entrevista ao Aventuras, João Viotti Saldanha relembra passagem do pai como treinador da Seleção antes da Copa de 1970: “Meu pai contribuiu politicamente por um país mais justo"

João Saldanha - Arquivo Nacional

João Saldanha está sendo revivido no imaginário popular. Desde a estreia da série ‘Brasil 70: A Saga do Tri’, pela Netflix, o nome do treinador da Seleção Brasileira em 1970 passou a despertar a curiosidade de quem não conhecia sua história. Na trama, ele é interpretado pelo ator Rodrigo Santoro.

Quando fomos tricampeões mundiais em 1970, o Brasil vivia o auge dos Anos de Chumbo da Ditadura Milirar. O general Emílio Garrastazu Médici entendia que a paixão do brasileiro pelo futebol seria a distração perfeita para esconder a brutalidade do regime. 

Vale contextualizar ainda que, em 13 de dezembro de 1968, foi promulgado por Artur da Costa e Silva, antecessor de Médici, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) — o decreto mais repressivo do período; que suspendeu os direitos constitucionais e consolidou o regime de exceção no país.

Em contrapartida desse cenário surgiu a figura de João Saldanha. Filiado ao Partido Comunista, Saldanha chegou a ser preso durante algumas vezes pelos agentes da ditadura. Mesmo assim, chegou ao comando técnico da Seleção Brasileira que serviria como propaganda do regime. 

Mas João não se deixou calar diante do cenário. “Meu pai contribuiu politicamente por um país mais justo e esteve sempre ao lado dos que fizeram grandes mudanças nesse país”, recorda João Viotti Saldanha, filho do treinador, em entrevista à equipe do Aventuras. 

Ele sabia usar do humor e do sarcasmo com comentários e frases que se tornaram corriqueiras no repertório dos seus ouvintes. Foi extremamente resistente com todos que o invejavam e perseguiram, durante os Anos de Chumbo, mantendo-se firme com sua visão de Justiça”.    

Para João, seu pai continua sendo uma figura tão emblemática para o futebol pela sua capacidade de síntese e comunicação com as mais diversas classes sociais. “Além disso, formou aquela que é considerada a maior seleção de todos os tempos, foi campeão pelo seu time do coração, como técnico do Botafogo, trabalhou no rádio, no jornal e na televisão como jornalista e comentarista”.

++ João Saldanha: O técnico da Seleção Brasileira que peitou a Ditadura Militar

Desavença com Médici 

Em março de 1970, a imprensa brasileira começava a repercutir que Médici era fã de Dadá Maravilha e queria vê-lo com a amarelinha. Saldanha, porém, não era tão entusiasta assim do jogador. Por conta disso, peitou Médici

Papai esteve a frente da seleção de 1970, em plena Ditadura. Disse para o maior assassino da história recente do nosso país: ‘que nem ele cuidava de seu ministério e tampouco o presidente de seu time’. Foi demitido em questão de horas, sem concessões!”. 

João Viotti Saldanha nasceu em 1959, apenas cinco anos antes do Golpe de 64. Apesar da pouca idade em 1970, relembra suas memórias no auge dos Anos de Chumbo. “Aos dez anos de idade eu tinha muitas informações de que a vida no nosso país é cheia de diferenças básicas para a composição de um país justo”. 

“Cresci numa família de classe média, no Rio de Janeiro, onde a praia estava à nossa disposição. Meus pais já haviam se separado, embora meu pai frequentasse a residência onde morei com minha mãe e irmã”. 

“Aos domingos, geralmente, almoçávamos juntos como qualquer família comum. As conversas giravam em torno de personagens que foram ameaçados ou mesmo mortos durante esse período, nomes como o do Vlado [Vladimir Herzog] e do [Carlos] Marighella eram sempre mencionados. Nós tínhamos uma boa orientação dos fatos de ambos nossos pais!”. 

Por fim, Viotti diz como a família esteve ao lado de Saldanha após sua demissão. “Lembro do meu pai nos chamando para almoçar no dia da sua demissão e nos embolando os quatro filhos, eu e minhas irmãs, num abraço a quatro, dizendo que sabia que não deveria subir a rampa do planalto do lado de um assassino!”.


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Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!