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Estudo sugere que humanos usavam fogo há 1,8 milhão de anos

Pesquisa na Caverna Wonderwerk encontrou evidências de uso repetido do fogo por hominídeos entre 1,07 e 1,79 milhão de anos

Foto ilustrativa - Getty Images

Novas evidências encontradas na Caverna Wonderwerk, na África do Sul, sugerem que os primeiros humanos utilizavam fogo dentro de cavernas muito antes do que muitos arqueólogos acreditavam. Um estudo publicado na revista PLOS One identificou sinais de uso repetido do fogo em depósitos datados entre 1,07 milhão e 1,79 milhão de anos, tornando o sítio um dos registros mais antigos conhecidos desse comportamento entre hominídeos.

A Caverna Wonderwerk já era considerada um local de grande importância para o estudo da evolução humana devido ao seu longo histórico de ocupação. Pesquisas anteriores haviam identificado vestígios de queima em camadas arqueológicas com cerca de um milhão de anos. Agora, a análise de depósitos mais profundos revelou indícios ainda mais antigos da presença controlada do fogo.

Como os pesquisadores analisaram os vestígios

De acordo com a Archaeology News, para conduzir o estudo, os cientistas examinaram 161 ossos fossilizados de pequenos mamíferos recuperados de duas camadas do Pleistoceno Inferior, conhecidas como Estratos 10 e 11. Muitos desses animais provavelmente chegaram à caverna por meio da atividade de corujas-das-torres, que depositavam pelotas contendo restos ósseos no local ao longo de milhares de anos.

Os pesquisadores utilizaram duas técnicas para determinar se os ossos haviam sido expostos ao calor. A primeira foi a Espectroscopia de Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR), capaz de detectar alterações estruturais causadas por altas temperaturas. A segunda consistiu na análise da luminescência óssea, método em que ossos aquecidos apresentam brilho avermelhado sob luz azul e filtros especiais.

Antes de aplicar a técnica aos fósseis, a equipe realizou testes com ossos modernos submetidos a aquecimento controlado. Os resultados também foram comparados a materiais arqueológicos de um sítio da Idade do Bronze na Espanha. Segundo o estudo, os resultados obtidos pelos dois métodos coincidiram, confirmando a confiabilidade da abordagem.

Fogo dentro da caverna

Caverna Wonderwerk, África do Sul. Áreas de escavação mostrando marcos de estalagmite, layout em grade e estratos amostrados. As seções destacam unidades litoestratigráficas, camadas arqueológicas, zonas paleomagnéticas e evidências de queima em múltiplos depósitos – Crédito: Marin-Monfort et al., PloS One (2026)

A análise revelou sinais claros de queima nas duas camadas estudadas. Todos os ossos fossilizados brancos e cinzentos testados na camada mais antiga, o Estrato 11, apresentaram evidências de aquecimento.

A localização desses materiais chamou a atenção dos pesquisadores. Os fósseis foram encontrados em depósitos situados a pelo menos 30 metros da entrada da caverna. Segundo os autores, incêndios naturais em vegetação teriam dificuldade para alcançar profundidades tão grandes, tornando improvável a hipótese de que os ossos tenham sido queimados acidentalmente por fogo vindo do exterior.

Outro aspecto considerado importante foi a distribuição dos restos carbonizados. Em vez de aparecerem espalhados uniformemente pela área escavada, os ossos queimados estavam agrupados em pontos específicos. Esse padrão sugere que episódios de queima ocorreram repetidamente em determinadas áreas da caverna ao longo de extensos períodos.

Ligação com Homo erectus

Os fósseis queimados foram encontrados ao lado de ferramentas de pedra acheulenses e restos de animais maiores. Essa associação levou os pesquisadores a relacionar as evidências à atividade de hominídeos.

De acordo com a equipe, os ocupantes mais prováveis responsáveis por levar fogo para o interior da caverna foram populações iniciais de Homo erectus. O estudo não sugere que esses grupos fossem capazes de produzir fogo por conta própria. A hipótese apresentada é que eles coletavam fogo de fontes naturais e conseguiam mantê-lo aceso após transportá-lo.

Mesmo sem produzir as chamas, essa prática já exigiria planejamento e algum grau de controle sobre o fogo. Os pesquisadores destacam que ele poderia oferecer benefícios importantes, como calor, iluminação e proteção contra predadores.

Além de reforçar a ideia de que o domínio do fogo pode ter surgido muito antes do que se imaginava, o estudo também apresenta uma técnica rápida e não destrutiva para identificar evidências de queimadas antigas. Os autores acreditam que futuras pesquisas em outros sítios arqueológicos poderão ajudar a refinar a cronologia do uso do fogo pelos primeiros hominídeos na África e em outras regiões do mundo.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes