Matérias / Segunda Guerra

A promessa britânica que a Polônia ainda considera não cumprida

De Churchill a Yalta: os acordos e as concessões políticas que transformaram uma garantia de defesa mútua em uma das maiores frustrações geopolíticas da Polônia

Hitler observando soldados alemães marchando para a Polônia - German Federal Archives

A Segunda Guerra Mundial começou oficialmente em 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Entretanto, para compreender por que os poloneses ainda enxergam aquele episódio como uma promessa quebrada, é preciso voltar alguns anos e observar o comportamento das grandes potências europeias diante do avanço do expansionismo alemão.

Antes mesmo de a guerra ser declarada, Adolf Hitler já havia dado sinais claros de suas intenções. A Alemanha anexou a Áustria e parte da Tchecoslováquia. Na Ásia, o Japão avançava sobre a China. A Itália fascista ocupava territórios na África e nos Bálcãs. Os indícios estavam por toda parte.

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Política de Apaziguamento

As lideranças europeias acreditavam que seria possível evitar um novo conflito continental por meio de negociações e concessões diplomáticas. França e Reino Unido apostaram na chamada política de apaziguamento, uma estratégia que consistia em atender, sucessivamente, às exigências territoriais de Hitler e Mussolini, sempre na esperança de que aquela fosse a última reivindicação.

O resultado foi exatamente o contrário.

A Alemanha anexou a Áustria em uma operação conhecida como Anschluss. Depois vieram os Sudetos tchecos. Em seguida, outros avanços territoriais foram tolerados sem resistência efetiva. A cada nova concessão, Hitler percebia que as democracias europeias pareciam mais preocupadas em evitar uma guerra do que em impedir sua expansão.

A Promessa de Proteção

Foi nesse contexto que surgiu a promessa feita à Polônia.

Após assistir à incorporação da Áustria, à desintegração da Tchecoslováquia e ao crescimento da influência alemã no continente, o governo britânico garantiu aos poloneses que com eles seria diferente. O Reino Unido prometeu que as Forças Armadas britânicas protegeriam a Polônia caso ela fosse atacada. A França fez o mesmo.

Para Varsóvia, aquela garantia representava muito mais do que uma declaração diplomática. Tratava-se da certeza de que las duas maiores potências militares da Europa Ocidental não permitiriam que o país fosse abandonado diante da Alemanha nazista.

Os Testes de Hitler

Mas os acontecimentos demonstrariam outra realidade. Londres e Paris não compreenderam a verdadeira natureza das movimentações de Hitler. Aquilo que muitos enxergavam como reivindicações limitadas era, na verdade, parte de um projeto expansionista muito maior.

As ocupações anteriores haviam funcionado como testes. Hitler utilizava essas ações para medir as reações internacionais. Cada vez que não encontrava resistência significativa, fortalecia sua convicção de que poderia avançar ainda mais.

A Invasão e a Guerra Sentada

Então chegou setembro de 1939. No dia 1º, as forças alemãs invadiram a Polônia de forma avassaladora. Pela primeira vez, Reino Unido e França decidiram reagir formalmente. Declararam guerra à Alemanha. Mas aí surgiu o problema. A declaração de guerra não foi acompanhada de ações militares efetivas.

Os alemães chegaram a chamar aquele momento de sitzkrieg, ou “guerra sentada”. A expressão era usada de forma sarcástica para descrever a aparente inatividade dos Aliados enquanto a Polônia era esmagada pelo poder militar alemão.

Do ponto de vista polonês, aquilo representava uma profunda contradição. As promessas haviam sido feitas. Os compromissos tinham sido assumidos. As garantias de proteção haviam sido anunciadas. Entretanto, quando a invasão ocorreu, a ajuda prometida não chegou na forma esperada.

Invasão Soviética

A situação tornou-se ainda pior duas semanas depois. Em 17 de setembro, a União Soviética também invadiu a Polônia. Após assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop com a Alemanha, Josef Stalin decidiu ocupar a parte oriental do território polonês. O país passou a ser atacado simultaneamente por duas das maiores potências militares da Europa. Mais uma vez “todos calaram a boca”.

A Polônia encontrava-se isolada. De um lado, o Terceiro Reich. Do outro, a União Soviética. Enquanto isso, os Aliados ocidentais permaneciam sem realizar uma ofensiva capaz de aliviar a pressão sobre os poloneses. A Polônia, ainda hoje, espera ver cumprida a falaz promessa de proteção britânica e francesa.

A palavra “falaz” não aparece por acaso. Ela traduz a percepção de que o compromisso assumido pelas duas potências revelou-se insuficiente justamente no momento em que mais era necessário. O episódio tornou-se um dos símbolos mais discutidos do fracasso diplomático europeu no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Raízes do Fracasso

Os erros começaram muito antes da invasão. Eles podem ser encontrados na política de apaziguamento, nas concessões feitas à Alemanha, na incapacidade de interpretar corretamente as intenções de Hitler e até mesmo na exclusão da União Soviética das negociações de Munique.

Cada uma dessas decisões contribuiu para criar as condições que permitiram o ataque à Polônia. Quando finalmente decidiram reagir, Reino Unido e França já enfrentavam um adversário fortalecido por anos de tolerância internacional.

Para os poloneses, porém, a questão central permanece outra. O país recebeu garantias de proteção. Confiou nelas. E quando a invasão aconteceu, viu-se sozinho diante de dois invasores.

Por isso, a invasão da Polônia não representa apenas o início formal da Segunda Guerra Mundial. Ela também simboliza uma promessa que, para muitos poloneses, jamais foi plenamente cumprida.

Uma promessa feita em nome da segurança coletiva europeia. Uma promessa que não impediu a destruição do país. E uma promessa cuja lembrança continua presente na memória histórica da Polônia até hoje.


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