‘Emergência radioativa’: vítimas do Césio-137 foram enterradas em caixões de chumbo de 700 quilos
Enterro de vítimas do acidente do Césio-137 contou com diversas medidas de segurança e ficou marcado por protestos de moradores locais

Quase quatro décadas desde a tragédia que abalou Goiânia, o acidente com o Césio-137 segue sendo lembrado como o maior desastre radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear. O caso, que impactou a vida de milhares de pessoas em 1987, recentemente voltou ao centro das atenções com a minissérie “Emergência Radioativa“, que estreou em 18 de março na Netflix e rapidamente se tornou a produção mais assistida no Brasil.
Tudo teve início quando dois catadores, Wagner Pereira e Roberto Alves, entraram em uma clínica abandonada, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia, e encontraram um equipamento de radioterapia. Sem conhecimento dos riscos, eles desmontaram o aparelho e levaram parte dele para casa. O que não sabiam é que, dentro da cápsula, havia cerca de 19 gramas de Césio-137, uma substância altamente radioativa.
Posteriormente, venderam o material a um ferro-velho localizado no Setor Aeroporto, o qual pertencia a Devair Ferreira. Foi nesse local que o pó azulado, cujo brilho era visível no escuro, chamou atenção de familiares, vizinhos e conhecidos que, fascinados pelo aspecto incomum, tocaram a substância e até a passaram sobre a pele. Em poucos dias, começaram a surgir sintomas como vômitos, diarreia e queimaduras, inicialmente confundidos com um quadro de intoxicação alimentar. O resultado foi devastador: quatro mortes diretas, incluindo a de uma criança, e cerca de 1,6 mil pessoas afetadas, segundo a Associação de Vítimas do Césio 137.
Sobre as vítimas fatais
Entre as primeiras vítimas fatais estavam Maria Gabriela Ferreira e a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos de idade. Maria era esposa de Devair Ferreira, dono do ferro-velho que manipulou o equipamento contaminado. Já Leide, sua sobrinha, chegou a ingerir o pó radioativo, atraída pelo aspecto luminoso da substância.
Com o agravamento do quadro de saúde, ambas foram transferidas para o Rio de Janeiro, mas infelizmente não resistiram aos efeitos da radiação. As mortes ocorreram em 23 de outubro de 1987, e o enterro, realizado no dia seguinte, entrou para a história pela dimensão das medidas de segurança adotadas.

Caixões de chumbo
De acordo com reportagem do jornal O Globo, os corpos delas foram colocados em caixões de chumbo com cerca de 600 quilos, embora alguns relatos indiquem que o peso total, considerando reforços estruturais, chegava próximo de 700 quilos. As urnas tinham mais de dois metros de comprimento e aproximadamente 80 centímetros de altura. Além disso, no caso de Leide, o corpo ainda foi envolto em três lençóis de chumbo, cada um com dois milímetros de espessura.
O sepultamento em si exigiu uma operação complexa. Três caminhões de concreto foram mobilizados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear para selar o túmulo com uma laje de 30 centímetros de espessura, numa tentativa de evitar qualquer risco de contaminação.
Apesar das precauções, o clima no cemitério foi de grande tensão e revolta, já que moradores da região, temendo que a radiação pudesse se espalhar, posicionaram-se contra o enterro no local. A situação gerou tumulto, dificultando inclusive a despedida das famílias.
No fim não houve velório, já que presença de curiosos e manifestantes impediu que parentes se aproximassem dos caixões, que contavam apenas com pequenos visores de vidro para identificação das vítimas.