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Dona Beja: a verdadeira Ana Jacinta de São José, entre o mito e os arquivos

Pedro Popó relembra documentos, entrevistas com descendentes e episódios pouco explorados de Dona Beja, personagem histórica de Araxá, em Minas Gerais

Fotografia de Dona Beja e o jornalista Pedro Divino Rosa segurando seu livro, 'Dona Beija' / Crédito: Pedro Divino Rosa

A figura de Dona Beja volta ao centro das atenções com uma nova novela estrelada por Grazi Massafera, reacendendo o interesse por uma das personagens históricas mais controversas de Minas Gerais. Natural de Araxá, em Minas Gerais, Ana Jacinta de São José atravessou o imaginário popular como símbolo de sensualidade, poder e escândalo — uma imagem consolidada sobretudo por obras de ficção que, ao longo do século 20, ajudaram a transformar sua trajetória em mito. Mas essa não é a única Dona Beja possível.

Nos anos 1990, o jornalista Pedro Divino Rosa, conhecido como Pedro Popó, publicou uma biografia que seguiu outro caminho. Também natural de Estrela do Sul — município que teve papel central nos últimos anos de vida da figura histórica —, ele se dedicou a reconstruir uma visão mais histórica da mulher por trás da lenda, a partir de documentos originais e de entrevistas com descendentes diretas. Para ele, a nova adaptação televisiva dialoga mais com a tradição mítica do que com os dados históricos disponíveis.

No livro ‘Dona Beija’, Pedro Popó entrevistou a “única bisneta viva dela e algumas tataranetas dela e também estudiosos que se preocuparam em saber de fato quem foi Dona Beija”, conforme ele contou em entrevista exclusiva ao Aventuras na História. Além dos relatos familiares, ele se apoiou em documentos oficiais, muitos deles preservados em museus e arquivos judiciais. “Também pesquisei vários documentos (originais) que trazem informações preciosas dela”, afirma. Um desses registros, segundo ele, confirma que a primeira filha de Dona Beja era fruto da relação com um padre. “Um deles é o que confirma que a primeira filha dela era de um padre, Francisco José da Silva. Esse padre reconheceu a filha. Tem o documento no Museu de Araxá.”

Essa informação contrasta com versões ficcionais amplamente difundidas, que atribuem a paternidade a um suposto amante. “Também em todas as minhas pesquisas não encontrei comprovação de que ela teve um amante chamado Antônio Sampaio, que, supostamente, teria sido o pai da primeira filha dela, Tereza Thomásia de Jesus”, diz. Para o jornalista, esse personagem pode ter sido uma construção posterior: “Na minha opinião, Sampaio teria sido uma criação de alguém da época.”

Trajetória de Dona Beja

Outro ponto recorrente nas narrativas romanceadas é a circulação constante de Dona Beja por diferentes cidades. Pedro Popó relativiza essa ideia: “Dona Beija não morou em Paracatu. Ela pode ter passado por lá, mas ter residência fixa, não.” Segundo ele, o ouvidor envolvido em sua história vinha da antiga Vila Boa de Goiás, hoje Cidade de Goiás, o que ajuda a explicar deslocamentos pontuais, mas não uma fixação permanente fora de Araxá e, mais tarde, de Estrela do Sul.

Mesmo em relação à Chácara do Jatobá — espaço central no imaginário popular —, o autor faz ressalvas. “Ela teve a Chácara do Jatobá, sim, mas não era a pessoa desvairada que há no mito.” A imagem de excessos e descontrole, para ele, foi sendo construída com o tempo, enquanto os documentos revelam uma mulher estrategicamente inserida nas dinâmicas sociais e políticas do século 19. Ela inclusive “colaborou dando dinheiro para a Revolução Liberal de 1842”, segundo Pedro Popó.

A mudança definitiva para Estrela do Sul, então chamada Bagagem, em 1853, marca um novo capítulo. “Ela foi para Estrela do Sul (que se chamava Bagagem), em 1853 para explorar garimpo de diamantes.” Lá, Dona Beja participou ativamente da vida econômica e política local. “Nessa cidade, ela participou de uma sociedade para a construção de uma virada (garimpo que desvia o curso do rio). Teve muita influência política em Estrela do Sul e emprestou dinheiro para construir uma ponte sobre o Rio Bagagem para ligar os dois lados para que a procissão da santa de sua devoção pudesse passar pela sua porta.”

Ao contrário da imagem de riqueza permanente, o fim da vida de Dona Beja foi marcado pela perda de patrimônio. “Morreu com poucas posses”, segundo Pedro Popó, que também investigou o destino de seu testamento. “Deixou um testamento cujo original ficava no Fórum de Estrela do Sul. Porém, um juiz da Comarca pegou o testamento e o inventário (originais) e mandou para o Museu do Judiciário em Belo Horizonte.” Ele relata ainda que tentou impedir a retirada dos documentos: “na época em que o juiz fez isso, eu consegui aprovar na Câmara de Estrela do Sul um protesto e o impedimento de os papéis originais saírem do Município, mas, mesmo assim, o juiz os mandou para BH.”

Casa em que Dona Beja morreu, no atual município de Estrela do Sul, em Minas Gerais / Crédito: Pedro Divino Rosa

Cercada por mitos

Para o jornalista, a consolidação do mito se deve sobretudo a autores que priorizaram o aspecto lendário da personagem. “Os livros de Agripa Vasconcelos (A vida em Flor de Dona Beija) e de Thomas Leonardos (A Feiticeira do Araxá), mais conhecidos do público, exploram mais o mito e não se preocuparam em falar dela em Estrela do Sul, que também tem grande importância para a história.”

Ele lembra ainda que a fama de Dona Beja foi impulsionada por uma iniciativa local: “vale lembrar que o caso Dona Beija só veio a ficar conhecido do público depois que um cidadão de Araxá chamado por Sebastião de Affonseca e Silva ‘criou’ o mito e passou a divulgá-lo. Ele tinha as informações de que a Beija tinha sido cortesã influente na localidade e explorou bem esse assunto e foi a partir daí que a fama dela se espalhou.”

Embora questione exageros da ficção, Pedro Popó não nega aspectos centrais da imagem popular. “De fato, Dona Beija foi cortesã.” Segundo ele, isso foi confirmado por diferentes fontes. “Todos os familiares dela que eu entrevistei me confirmaram isso, independente do que tem de publicação sobre isso.” Ele acrescenta: “E eu ouvi pessoas idosas, muito idosas, que fizeram questão de confirmar que ela tinha sido cortesã.”

Ainda assim, sua trajetória não se resume a esse papel. “Ela movimentou a Chácara do Jatobá, em Araxá, lugar onde recebia quem a procurava e foi como cortesã que teve influência em Araxá.” Com o tempo, no entanto, esse modo de vida foi sendo abandonado: “contudo, com a morte de Tereza Thomásia e a ida da filha Joana para Estrela do Sul, ela foi se afastando dessa vida até resolver se mudar para Estrela do Sul. Naquela época, muitos membros do chamado clã da Beija já tinham se mudado para lá.”

Um dos episódios mais explorados pelas novelas é o suposto rapto por Joaquim Inácio Silveira da Motta. Pedro Popó afirma que há base histórica para o acontecimento, mas critica sua romantização. “Não resta dúvida de que Dona Beija foi ‘levada’ pelo ouvidor Joaquim Ignácio Silveira da Mota.” Ele diz que a confirmação veio de uma descendente direta: “a bisneta dela, que eu entrevistei, que guardou na memória as histórias que ouvia quando criança e jovem sobre a personagem, me declarou a existência do suposto ‘rapto’. Essa bisneta que eu entrevistei era muito segura e objetiva nas suas declarações.”

Ainda assim, pondera: “entretanto, romantizaram demais esse suposto rapto e criaram uma ficção danada em torno dele.” Para ele, a realidade foi mais direta: “mas, ‘levada’ pelo ouvidor, ela foi mesmo e viveu em companhia dele até que ele voltou para a Corte.”

Escombros da casa em que Dona Beja morreu / Crédito: Pedro Divino Rosa

Entre mito e documento, Pedro Popó defende que conhecer Dona Beja exige olhar além da sedução da ficção. Sua pesquisa revela uma mulher complexa, inserida nas contradições de seu tempo — nem santa, nem feiticeira, mas profundamente histórica.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.