Meteorito de Marte que caiu na Terra está repleto de água, revelam análises
Novo estudo descobriu que o meteorito Black Beauty, que caiu na Terra vindo de Marte, contém mais água do que se pensava, e pode revelar pistas sobre o passado com água do planeta vermelho

Um novo estudo identificou uma quantidade significativamente maior de água antiga aprisionada no meteorito marciano conhecido como Black Beauty, reforçando a hipótese de que Marte teve um passado muito mais úmido do que se imaginava. A rocha espacial, considerada o meteorito marciano mais antigo já encontrado na Terra, pode oferecer pistas inéditas sobre a história aquática do Planeta Vermelho e seu potencial para ter abrigado vida.
A descoberta foi possível graças a uma técnica inovadora descrita pelos pesquisadores como uma forma de “varredura de nêutrons”, capaz de mapear o conteúdo interno do meteorito sem a necessidade de fragmentá-lo. O estudo indica que partículas microscópicas de água ancestral permanecem preservadas no interior da rocha, ampliando de forma considerável as estimativas anteriores sobre sua hidratação.
Conhecido oficialmente como NWA 7034, o Black Beauty é um fragmento de Marte com cerca de 320 gramas. Ele foi descoberto em 2011 por nômades no Deserto do Saara, no Marrocos, embora não haja registro de quando exatamente caiu na Terra. O meteorito se destacou desde então por sua coloração escura, intensificada pelo polimento de uma de suas faces, e por sua composição incomum em relação a outros meteoritos marcianos.
Estudos anteriores sugerem que o Black Beauty se originou da cratera Karratha, próxima ao equador de Marte, com cerca de 10 quilômetros de diâmetro. A ejeção do fragmento para o espaço teria ocorrido entre 5 e 10 milhões de anos atrás, após o impacto de outro corpo celeste. No entanto, a rocha em si é extremamente antiga: datações indicam que ela se formou há pelo menos 4,44 bilhões de anos, o que a torna o meteorito marciano mais antigo já identificado.
Desde 2013, os cientistas sabem que o Black Beauty contém vestígios de água. Análises posteriores sugeriram que parte dessa água pode ter sido aquecida no passado, o que alimentou especulações sobre ambientes potencialmente favoráveis à vida microbiana em Marte. Até então, porém, o estudo detalhado dessa água exigia a destruição de pequenos fragmentos do meteorito, limitando as análises possíveis.
O novo trabalho, publicado em 13 de janeiro no servidor de pré-impressão arXiv, contornou esse obstáculo ao empregar uma técnica semelhante à tomografia computadorizada. Em vez de raios X, os pesquisadores utilizaram nêutrons, que são especialmente eficientes para detectar átomos de hidrogênio — elemento fundamental da água — em materiais extremamente densos como meteoritos. Com isso, foi possível realizar a primeira análise abrangente de todo o conteúdo hídrico da rocha.
Os resultados indicam que a água representa cerca de 0,6% da massa total do Black Beauty, o equivalente aproximado a um fragmento do tamanho de uma unha humana. Embora o valor pareça modesto, ele é consideravelmente maior do que as estimativas anteriores. A maior parte dessa água está aprisionada em pequenos fragmentos, ou clastos, de oxihidróxido de ferro rico em hidrogênio (FeHO2), um material semelhante ao principal componente da ferrugem, que se forma quando o ferro reage com a água sob alta pressão, como durante impactos meteóricos, conforme repercute o Live Science.
Água em Marte?
A presença dessa água reforça um conjunto crescente de evidências de que Marte já foi um planeta aquático. Apesar de hoje apresentar uma superfície árida e empoeirada, dados geológicos e orbitais indicam que grandes oceanos podem ter existido no planeta até cerca de 3 bilhões de anos atrás. Parte dessa água ainda persiste na forma de gelo enterrado próximo ao equador, depósitos gelados em regiões elevadas e um vasto reservatório subterrâneo identificado em 2024, repercute o Live Science.
Nesse contexto, o Black Beauty é considerado uma das evidências diretas mais antigas da presença de água em Marte. Seu estudo pode ajudar a esclarecer como o planeta adquiriu sua água e como ela foi preservada ao longo do tempo. Com o recente cancelamento da missão da NASA que traria amostras marcianas coletadas pelo rover Perseverance, meteoritos como o Black Beauty permanecem como a principal fonte direta para o estudo da água marciana em laboratórios terrestres.