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Stranger Things: O caso que teria inspirado o Sr. Fulano

Lenda urbana de 1962, em que 37 crianças teriam desenhado o mesmo amigo imaginário, viraliza com o fim de Stranger Things

Sr. Fulano Stranger Things
Sr. Fulano, alter-ego de Henry Creel - Netflix

Desde a estreia da quinta temporada de Stranger Things, o personagem Sr. Fulano se tornou um dos pontos mais discutidos entre fãs — não apenas pelo papel que desempenha na trama, mas também pelas lendas e suposições que sua presença tem gerado nas redes sociais.

Uma das mais curiosas — e amplamente compartilhadas — é a ideia de que a criação do personagem teria sido inspirada por um suposto caso real de 1962 no qual 37 alunos de uma escola teriam desenhado o mesmo “amigo imaginário” sem nunca terem se conhecido. A narrativa circulou amplamente em postagens no Facebook e Instagram, mas não há registros históricos que confirmem a existência de tal incidente.

Teoria viral

Nas redes sociais, especialmente em páginas dedicadas a teorias de fãs e mistérios da cultura pop, surgiu a alegação de que os criadores de Stranger Things, Matt e Ross Duffer, teriam se inspirado no acontecimento real ocorrido em Wyoming, nos Estados Unidos. A descrição compartilhada nas postagens descreve um homem alto, sem rosto e usando um chapéu alto, o que imediatamente lembra a figura enigmática do Sr. Fulano na série.

Além disso, versões mais elaboradas dessas narrativas acrescentam que essa figura teria sido chamada de “Yellow Echo”, e teria características insólitas: não possuía boca, cheirava a estática e teria aparecido apenas quando chovia. Alguns relatos fictícios que acompanharam as postagens alegam que a entidade “sussurrava através das televisões” e até disse às crianças informações que não deveriam saber — incluindo a localização de um armário onde um professor guardava uma arma. A história ainda afirma que o professor desapareceu, os desenhos sumiram e a única evidência remanescente foi uma fita gravada com a voz de uma criança dizendo: “Nós não o desenhamos. Nós o lembramos.”

Embora narrativas como essas sejam atraentes para quem gosta de mistérios, não existe nenhuma evidência histórica, jornalística ou acadêmica que confirme a ocorrência real desse suposto incidente em 1962. Não há registros em jornais locais, arquivos escolares ou documentos oficiais que corroborem a história desse evento ou mesmo a existência de um relatório daquele ano descrevendo o fenômeno.

Ligação com Stranger Things

Na trama de Stranger Things, o personagem surge na quinta temporada como uma figura ambígua, inicialmente percebida por alguns personagens como um “amigo imaginário” de Holly Wheeler, a irmã mais nova de Mike e Nancy. No entanto, a narrativa toma um rumo sombrio: Sr. Fulano é, na verdade, Henry Creel/Vecna escondendo seu verdadeiro papel por trás dessa identidade — uma estratégia narrativa que se insere na mitologia do seriado e no universo do “Upside Down”, o mundo invertido e aterrorizante que permeia a série.

Divulgação – Netflix

A conexão com teorias pseudohistóricas vem exatamente dessa ambiguidade: uma figura que se faz presente como produto da imaginação infantil, mas que, na verdade, teria motivos sinistros e reais para existir na história. Isso alimentou especulações dentro da comunidade de fãs, que frequentemente busca paralelos entre Stranger Things e supostos eventos “do mundo real”.

Inspiração literária

Ao contrário da teoria da lenda urbana de 1962, a inspiração mais plausível e diretamente referenciada na série é literária. Stranger Things já havia incluído referências à literatura clássica de fantasia ao longo de suas temporadas, e nessa quinta parte isso se repete com destaque. Especificamente, há uma conexão clara com o livro A Wrinkle in Time (no Brasil conhecido como Uma Dobra no Tempo), de Madeleine L’Engle — obra que Holly Wheeler lê em um trecho da trama.

Em A Wrinkle in Time, personagens e conceitos que transcendem a realidade cotidiana ganham vida de maneira simbólica e multifacetada, algo que ecoa no papel que Sr. Fulano desempenha dentro da narrativa de Stranger Things. A própria escolha dos Duffer de incluir essa obra dentro do enredo funciona como uma pista metanarrativa para o público, apontando para uma inspiração literária explícita em vez de um evento misterioso real.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.