O legado de Vladimir Herzog, segundo seu filho: “Uma forma de ensinar as pessoas”
Em conversa com o Aventuras na História, Ivo Herzog, filho mais velho de Vlado, falou sobre o legado do pai, morto há 50 anos pela ditadura militar

No dia 24 de outubro de 1975, há 50 anos, o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog, foi convocado por agentes do II Exército para depor sobre supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), à época ilegal no Brasil.
No dia seguinte, ele compareceu ao DOI-CODI, em São Paulo, de forma espontânea, sendo preso na ocasião. Sons de tortura foram ouvidos por testemunhas e, pouco depois, o profissional foi declarado morto. A versão divulgada pelas autoridades dizia que Herzog havia se suicidado com um cinto. No entanto, tudo não passava de uma farsa que, mais tarde, seria desmascarada pelo fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor da foto forjada.
Naquele ano, Vlado havia assumido a direção do departamento de jornalismo da TV Cultura a convite do então secretário de Cultura de São Paulo, José Mindlin. Sua atuação independente e questionadora, no entanto, acabaria por incomodar os setores mais conservadores do regime. Logo, o profissional passaria a ser alvo de ataques e de uma campanha conduzida por deputados da ARENA, o partido de sustentação da ditadura, entre os quais estavam Wadih Helu e José Maria Marin.
Reação
A reação à morte do jornalista seria imediata. Pela primeira vez, a brutalidade da ditadura ficou exposta aos olhos da sociedade, de modo que manifestações populares e estudantis tomaram as ruas, reacendendo a mobilização que havia sido sufocada em 1968.
Uma semana após o assassinato, mais de 8 mil pessoas se reuniram na Catedral da Sé, em São Paulo, para um culto ecumênico concelebrado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright. O ato foi um verdadeiro divisor de águas: uniu diferentes setores da sociedade, da oposição política ao empresariado conservador, e deu início ao processo que culminaria, anos depois, na redemocratização do país.

Conforme destacou Ivo Herzog, filho do jornalista, em conversa com o Aventuras, “ainda levaria dez anos para termos novamente um governo sem militares, mas aquele momento foi decisivo”.
Importância da memória
Ivo, quem é presidente do Conselho do Instituto Vladimir Herzog, ressaltou a importância de se manter viva a memória do pai e daquele período histórico: “Revivermos a história e a memória do meu pai nesses 50 anos é fundamental porque cerca de 60 a 70% dos brasileiros não viveram a ditadura. Conhecer essa história, relembrar a memória e saber o que aconteceu é uma forma de ensinar as pessoas.”
Afinal, em sua visão, é somente através do conhecimento que será possível fortalecer a sociedade e evitar que atrocidades semelhantes voltem a acontecer. “Inclusive, eu poderia dizer que o atual julgamento dos golpistas de 8 de janeiro tem muito a ver com isso”, declarou o engenheiro.
Herzog destaca que o legado de seu pai é complexo e múltiplo. Há uma dimensão pessoal, ligada à defesa de uma sociedade democrática, em que os direitos de todos sejam respeitados. Nessa sociedade democrática, “a vontade da maioria deve escolher nossos governantes, mas para garantir também os direitos das minorias”. E há ainda uma dimensão social. Afinal, “foi esse legado que levou oito mil pessoas ao ato de 31 de outubro de 1975”.

Apesar disso, Herzog não vê o pai como um herói. Ele é, sobretudo, uma vítima da ditadura. O que aconteceu foi que sua morte sensibilizou o país pelas circunstâncias e por quem ele era. De acordo com o entrevistado, o pai “não era um ativista político, não empregava violência. Buscava o diálogo, o ensinamento e a informação como formas de criar reflexão dentro da sociedade. Mesmo em um contexto de repressão, acreditava que a ditadura podia ser derrotada e que a democracia seria reconquistada.”
Eventos póstumos
Em 1978, a Justiça reconheceria a responsabilidade da União pela prisão, tortura e morte do jornalista. No entanto, somente em 2013 seu atestado de óbito seria oficialmente retificado. O documento, que antes registrava “enforcamento por asfixia mecânica”, passou a indicar a verdadeira causa: “morte decorrente de lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatório em dependência do II Exército – SP (DOI-Codi)”. Décadas depois, em março de 2025, o Estado brasileiro daria mais um passo ao reconhecer formalmente Herzog como vítima de perseguição política.
Para Ivo, a anistia póstuma é mais um passo na jornada por justiça, mas é preciso que haja uma revisão da Lei de Anistia pelo Supremo Tribunal Federal. “Há uma ação parada há mais de oito anos, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, que precisa voltar ao plenário. A anistia perdoa os crimes políticos, mas nunca deveria perdoar crimes comuns como sequestro, tortura e assassinato. A demora em rever isso é um combustível para que pessoas como as que vimos no 8 de janeiro tentem novos golpes e novas rupturas democráticas”, finaliza.