O grande mistério por trás de uma das pinturas mais escandalosas da história

Grande mistério envolvendo obra de arte do século 19 teria sido solucionado 152 anos mais tarde, graças ao trabalho de um historiador

"A Origem do Mundo", de Gustave Courbet - Crédito: Getty Images

Por um século e meio, um grande mistério cercou uma polêmica pintura de Gustave Courbet datada de 1866. Desde o século 19, “A Origem do Mundo” vinha despertando curiosidade entre apreciadores e estudiosos da arte. O motivo? Todos queriam descobrir a identidade da mulher que teria inspirado o pintor. A resposta viria tardiamente, no ano de 2018, depois que um historiador francês apresentou uma hipótese bastante convincente — e que, segundo o próprio, teria surgido quase que por acaso.

Na pintura, o rosto da mulher não é exibido. Na verdade, a obra do artista francês mostra apenas o corpo do peito para baixo, dando destaque para o que ficaria conhecido como “a vulva mais escandalosa da arte”. O mais engraçado é que mesmo nos dias de hoje, a obra é motivo de polêmica. Ela chegou a ser censurada pelo Facebook no ano de 2011, em um episódio que acabou virando caso de Justiça na França (mas aí já é outra história).

Em busca da modelo

Durante décadas, acreditou-se que a modelo de Courbert fosse Joanna Hiffernan, amante dele e musa de outros pintores da época. A hipótese, no entanto, levantava dúvidas: Hiffernan era conhecida pelos cabelos ruivos intensos, enquanto a figura retratada exibe pelos escuros. Essa contradição parecia insolúvel, até que o historiador Claude Schopp encontrou uma nova pista.

Segundo o portal All That’s Interesting, enquanto pesquisava cartas trocadas entre Alexandre Dumas e George Sand, Schopp notou um erro de tradução em uma passagem enigmática. O trecho que antes dizia “Não se pinta a entrevista mais delicada e sonora de Miss Queniault” deveria, na verdade, dizer “Não se pinta o interior mais delicado e sonoro de Miss Queniault”. A sutil mudança de palavra foi suficiente para Schopp associar a modelo à bailarina parisiense Constance Quéniaux, e não a Hiffernan.

Constance Quéniaux – Crédito: Domínio público

Na época em que Courbet pintou “A Origem do Mundo”, em 1866, Constance Quéniaux era amante do diplomata otomano Halil Şerif Pasha, o mesmo que teria encomendado a obra para sua coleção privada. Essa relação reforçou a teoria de Schopp, que descreveu a descoberta como “pura coincidência”:

Normalmente faço descobertas depois de muito tempo de pesquisa. Desta vez, aconteceu imediatamente. Quase parece injusto”, brincou o historiador.

99% de certeza

Schopp apresentou sua conclusão a Sylvie Aubenas, chefe do departamento de gravuras da Biblioteca Nacional da França, que corroborou a hipótese. “Este testemunho da época me leva a acreditar, com 99% de certeza, que o modelo de Courbet era Constance Quéniaux”, afirmou.

Aubenas destacou ainda que descrições da época mencionavam as “lindas sobrancelhas negras” de Quéniaux, detalhe que coincide com a coloração dos pelos da modelo na pintura. Ela acredita que a verdadeira identidade de Constance foi gradualmente esquecida à medida que a bailarina ascendeu socialmente, tornando-se uma respeitada dama da sociedade e filantropa — o que teria contribuído para o apagamento de seu passado como modelo de um nu tão ousado.

Curiosamente, após sua morte, em 1908, foi encontrada entre os bens de Quéniaux uma pintura floral de Courbet: uma camélia vermelha em plena floração. A flor, símbolo das cortesãs parisienses do século 19 popularizado pelo romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, parece, para Aubenas, um tributo do artista e de seu patrono à mulher que emprestou seu corpo a uma das imagens mais provocantes e simbólicas da história da arte.

“Que homenagem mais perfeita poderiam Courbet e seu patrono oferecer a Constance?”, conclui Aubenas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.