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Tommy Thompson, explorador do ‘Navio de Ouro’, deixa prisão após 10 anos

O explorador americano Tommy Thompson foi preso por desacato ao se recusar a revelar o paradeiro de 500 moedas do naufrágio do S.S. Central America

Fotografia de Tommy Thompson e de moeda de ouro do S.S. Central America / Crédito: The Columbus Dispatch, Lon Horwedel

O cientista e explorador norte-americano Tommy Thompson deixou a prisão após passar cerca de dez anos detido por se recusar a revelar o paradeiro de parte de um tesouro de moedas de ouro ligado ao naufrágio do navio S.S. Central America. A libertação ocorreu na semana passada, segundo informações do Departamento Federal de Prisões dos Estados Unidos.

Thompson havia sido preso por desacato ao tribunal após descumprir ordens judiciais que exigiam que ele informasse onde estavam 500 moedas de ouro recuperadas do naufrágio. As peças fazem parte de um conjunto de artefatos encontrados durante a expedição que localizou o navio histórico no fundo do oceano.

Durante audiências judiciais, o explorador afirmou que não sabe onde as moedas estão. “Excelência, não sei se já percorremos esse caminho antes ou não, mas eu não sei onde está o ouro. Sinto como se eu não tivesse as chaves para a minha liberdade”, declarou Thompson diante da Justiça.

A prisão ocorreu em 2015, quando autoridades localizaram o cientista em um hotel na Flórida. Na época, ele vivia sob um nome falso após se tornar foragido por não comparecer a uma audiência judicial marcada em 2012.

O período de detenção chamou atenção por sua duração incomum. Em geral, a legislação dos Estados Unidos limita prisões por desacato ao tribunal a cerca de 18 meses. No entanto, decisões judiciais sucessivas mantiveram Thompson detido por aproximadamente uma década, em razão das circunstâncias específicas do caso e da persistente recusa em fornecer informações sobre o tesouro desaparecido.

S.S. Central America

Thompson se tornou conhecido internacionalmente em 1988, quando liderou a expedição que localizou o naufrágio do S.S. Central America, um navio a vapor que afundou em 1857 após enfrentar um furacão. O desastre resultou na morte de 425 pessoas e ocorreu quando a embarcação transportava uma grande quantidade de ouro proveniente da Corrida do Ouro da Califórnia.

Os destroços do navio foram encontrados a mais de dois mil metros de profundidade no Oceano Atlântico. A carga perdida incluía milhares de quilos de ouro, cujo desaparecimento teve impacto significativo na economia norte-americana da época. A perda do metal precioso contribuiu para um período de instabilidade financeira e pânico econômico nos Estados Unidos após o naufrágio.

Anos depois da descoberta do navio, surgiram disputas judiciais envolvendo investidores que haviam financiado a expedição de Thompson. Em 2005, financiadores entraram com ações na Justiça reivindicando participação na venda de cerca de US$ 50 milhões em barras e moedas de ouro recuperadas do naufrágio.

Mesmo décadas após a descoberta do S.S. Central America, os artefatos retirados do navio continuam despertando grande interesse entre colecionadores e investidores. Peças ligadas ao naufrágio frequentemente alcançam valores elevados em leilões especializados. Em 2022, por exemplo, um grande lingote de ouro proveniente da embarcação foi arrematado por US$ 2,16 milhões.

Críticas à prisão

A longa permanência de Thompson na prisão também gerou críticas de especialistas e profissionais envolvidos no mercado de relíquias históricas, repercute o UOL. Para alguns observadores, o tempo de detenção foi desproporcional diante da natureza da disputa.

Ryan Scott, professor de Direito da Universidade da Flórida que atuou em defesa da libertação do explorador, destacou a excepcionalidade da situação. “É muito incomum que isso dure 10 anos”, afirmou.

Entre negociantes que lidaram com objetos recuperados do naufrágio, também houve manifestações contrárias à punição prolongada. Dwight Manley, que participou da negociação de parte do tesouro do S.S. Central America, argumentou que a duração da pena foi excessiva. “Passar 10 anos na prisão por uma disputa de negócios não é a América. Há pessoas que matam e saem da prisão em metade desse tempo”, disse.

A libertação de Thompson encerra um capítulo de uma longa disputa judicial relacionada a um dos mais famosos tesouros marítimos já encontrados, cuja história continua a gerar debates sobre propriedade, exploração de naufrágios históricos e responsabilidades legais envolvendo descobertas desse tipo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.