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Secas severas provocadas por ciclos climáticos levaram civilizações da Idade do Bronze ao colapso

Novo estudo propõe que período de estiagem extrema ocorrido há cerca de 3.200 anos não foi provocado por um único evento, mas por diversos ciclos climáticos

Tigela de Caerwrle da Idade do Bronze / Créditos: Museu Nacional do País de Gales

Por muito tempo, historiadores atribuíram o colapso de importantes civilizações da Idade do Bronze Tardia a uma intensa seca que teria atingido o Mediterrâneo Oriental há cerca de 3.200 anos. Agora, uma nova pesquisa indica que esse período de estiagem extrema não foi provocado por um único evento climático, mas pelo encontro de diversos ciclos naturais que, ao atuarem simultaneamente, agravaram as condições de seca na região.

O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Estocolmo, reconstruiu a história climática do Mediterrâneo Oriental ao longo dos últimos 8 mil anos. Para isso, a equipe utilizou o modelo climático EC-Earth3-Tr8K, capaz de simular mudanças na precipitação e na disponibilidade de umidade em diferentes áreas da região. Os resultados obtidos coincidiram com registros naturais já conhecidos e revelaram que o clima passou por um processo gradual de ressecamento após a metade do Holoceno.

Segundo os cientistas, essa tendência de longo prazo está relacionada a alterações lentas na órbita da Terra em torno do Sol. Essas mudanças influenciaram a quantidade de chuva recebida pelo Mediterrâneo Oriental durante milhares de anos, o que, por consequência, tornou algumas áreas progressivamente mais áridas.

No entanto, os efeitos não foram iguais em toda a região. O Levante, que compreende partes do atual Oriente Médio, apresentou um processo contínuo de perda de umidade. Já setores dos Bálcãs e da Anatólia conseguiram preservar melhores condições hídricas, principalmente porque temperaturas mais baixas reduziram a evaporação da água do solo e das plantas.

Conforme repercutiu o portal Archaeology News, os pesquisadores descobriram que as secas mais intensas ocorreram quando essa tendência de ressecamento coincidiu com oscilações naturais do clima associadas ao Oceano Atlântico e à circulação atmosférica. Esses ciclos variam em escalas que vão de séculos a milênios e, quando atingem seus picos ao mesmo tempo, podem reduzir drasticamente o volume de chuvas em regiões que já enfrentam escassez hídrica.

A principal autora da pesquisa, Katherine Power, explica que foi justamente a combinação desses diferentes mecanismos climáticos que deu origem aos períodos mais severos de seca. Segundo ela, o alinhamento entre vários ciclos naturais produziu condições muito mais extremas do que aquelas provocadas apenas pela tendência gradual de diminuição das chuvas.

Consequências

Na avaliação da equipe, essas estiagens prolongadas exerceram enorme pressão sobre as sociedades da época. A redução da disponibilidade de água comprometeu a agricultura, diminuiu a produção de alimentos e tornou mais difícil sustentar populações numerosas. Em um cenário de escassez crescente, civilizações que já enfrentavam desafios políticos, econômicos ou militares ficaram ainda mais vulneráveis.

Esse contexto ajuda a explicar o declínio de diversos povos que dominavam o Mediterrâneo Oriental durante a Idade do Bronze Tardia. Entre eles estavam os micênicos, os minoicos e o poderoso Império Hitita, que sofreram profundas crises sociais e econômicas durante esse período de transformações.

Os autores ressaltam que suas conclusões reforçam hipóteses anteriores que relacionavam a seca ao colapso dessas civilizações. A diferença é que o novo estudo mostra que o fenômeno climático foi resultado da interação de vários processos naturais de longa duração, e não de uma mudança abrupta nas condições ambientais.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.