Retrato perdido de artista escocesa revela mulher da elite indiana
Especialistas identificaram obra do século 18 como sendo um retrato original da artista escocesa Katherine Read, pioneira na pintura europeia, retratando mulher da elite da Índia

O retrato mais antigo conhecido de uma mulher indiana pintado por uma artista europeia foi identificado por especialistas após ser levado ao programa de televisão da BBC Fake or Fortune.
A obra, que chegou aos pesquisadores embrulhada em um saco de dormir, foi atribuída à escocesa Katherine Read, uma das retratistas mais prestigiadas do século 18 e considerada uma artista pioneira por ter construído uma carreira de destaque em um período em que mulheres enfrentavam diversas restrições na formação artística.
A pintura retrata uma jovem indiana usando diversos colares de pérolas e um pingente de esmeralda, e agora é considerada o retrato mais antigo conhecido de uma pessoa indígena realizado por uma artista europeia.
Avaliada em cerca de US$ 130 mil (quase R$ 670 mil, na cotação atual), a obra foi apresentada ao programa por Mary-Louise Wedderburn, uma contadora aposentada que herdou o quadro de um tio há cerca de 20 anos. Ela acreditava que o retrato poderia ter sido pintado por Read, que, segundo sua família, seria uma parente distante.
Após a conclusão da investigação, Philip Mould, negociante de arte e um dos apresentadores da atração, comemorou o resultado. “Que resultado maravilhoso”, afirmou à BBC News. “Tenho certeza de que veremos mais obras dessa artista pioneira na Índia surgindo do nada.”
Wedderburn também destacou o significado da descoberta. “Para mim, é muito importante que seja de autoria de Katherine Read, não só pela ligação familiar, mas também por quem ela era”, declarou no programa. “Quanto mais descobrimos sobre Katherine Read, mais acredito que ela era uma mulher maravilhosa, simplesmente incrível.”
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Katherine Read
Nascida em 1723, próximo a Dundee, na Escócia, Katherine Read era uma entre 13 irmãos. Por ser mulher, não teve acesso ao estudo de desenho com modelos nus, prática comum na formação artística da época. Ainda assim, buscou aperfeiçoamento fora do país: em 1745 viajou para Paris para estudar pintura a lápis e, seis anos depois, mudou-se para Roma, onde produziu retratos de aristocratas italianos e viajantes britânicos.
Confiante em seu talento, Read registrou em uma carta enviada ao irmão sua ambição profissional: “Você verá que eu superarei isso, estando à altura dos melhores”.
Em 1753, a artista estabeleceu um estúdio em Londres, onde consolidou sua reputação como retratista. Ao longo da carreira, produziu mais de 300 retratos, principalmente de mulheres e crianças. Nos últimos anos de vida, mudou-se para a Índia, onde continuou pintando figuras femininas — contexto no qual os especialistas acreditam que o retrato recém-identificado foi produzido.
Para confirmar a autoria da obra, os pesquisadores reuniram diferentes tipos de evidência. Eles compararam pigmentos, modelagem e padrões de pincelada com trabalhos já reconhecidos de Katherine Read, incluindo um retrato de sua sobrinha Helena Beatson, utilizado como referência. Além disso, analisaram cartas e testamentos relacionados à permanência da artista na Índia, o que ajudou a reconstruir parte de sua trajetória naquele período.
As análises também permitiram formular hipóteses sobre a identidade da mulher retratada. Os especialistas acreditam que ela posou na atual cidade de Chennai, então conhecida como Madras, e integrava a elite do Império Mughal. Embora seu nome permaneça desconhecido, é provável que fosse esposa de um príncipe indiano.
Segundo o historiador de arte Charles Greig, o retrato possui um valor histórico excepcional por representar um perfil raramente registrado na produção artística europeia do período, repercute a Smithsonian Magazine.
“Isso é extremamente incomum, porque a maioria dos outros retratos de mulheres indianas são de damas de companhia, ou às vezes esposas, de europeus”, explicou durante o episódio do programa. “Mas não me lembro de outro retrato de uma mulher indiana desse período que faça parte da corte real, em vez de pertencer à família de um europeu. Isso o torna extremamente importante.”