Pintura danificada de Artemisia Gentileschi será leiloada

Obra barroca atribuída a Artemisia Gentileschi será vendida após décadas esquecida em porão, mesmo após perder rosto e parte do busto de Maria Madalena

Retrato danificado de Maria Madalena, por Artemisia Gentileschi, e versão semelhante da mesma cena / Crédito: Divulgação/Dorotheum e Palácio Pitti

Uma pintura atribuída à artista barroca Artemisia Gentileschi, mantida enrolada em um porão por décadas, será leiloada ainda neste mês apesar de apresentar um grande recorte que eliminou o rosto e parte do peito de sua figura central: Maria Madalena. A obra, datada entre 1615 e 1618, tem valor estimado entre US$ 120 mil e US$ 180 mil (entre R$ 599 mil e R$ 899 mil, na cotação atual).

O retrato será vendido em 28 de abril pela Dorotheum, casa de leilões da Europa Central responsável pelo lote. Mesmo danificada, a pintura chamou atenção de especialistas por preservar traços considerados característicos da técnica de Gentileschi, incluindo o tratamento do tecido, da luz e da expressão corporal.

Segundo a descrição da obra, o quadro retrata Maria Madalena em uma composição mais tradicional, sentada em uma cadeira e afastando um espelho — gesto associado à rejeição da vaidade e à conversão espiritual. Também aparecem elementos clássicos ligados à santa, como um frasco de unguento, usado para ungir o corpo de Jesus após a crucificação.

Os especialistas ainda não sabem como a pintura foi mutilada, mas a hipótese mais provável aponta para o contexto turbulento do pós-guerra em Berlim. “Provavelmente ocorreu durante os violentos levantes em Berlim após a Segunda Guerra Mundial”, observa a Dorotheum, em comunicado. “A pintura ficou enrolada em um porão até que sua qualidade fosse reconhecida e restaurada. Apesar do estado de deterioração, esta pintura mantém a qualidade técnica e a profundidade psicológica da autoria de Artemisia.”

A atribuição da obra à pintora foi feita em 2011 pelo historiador de arte Roberto Contini, que incluiu o retrato em uma exposição no Palácio Real de Milão. Desde então, a pintura passou a ser analisada em comparação com outra versão semelhante de Maria Madalena, produzida por Gentileschi por volta de 1620 e hoje preservada no Palácio Pitti.

As duas obras compartilham elementos visuais centrais, como a posição da santa e a presença de objetos simbólicos. No entanto, a versão que vai a leilão apresenta diferenças sutis que, segundo os especialistas, ajudam a entender melhor o processo criativo da artista.

De acordo com a descrição do lote, o quadro sem rosto tem uma “representação mais dinâmica e pictórica” do drapeado da saia amarela de Maria e das mangas de sua blusa branca. Há também mudanças no posicionamento da mão esquerda da personagem, do frasco de unguento e da cadeira em que ela está sentada.

Essas variações, segundo os organizadores do leilão, oferecem um “vislumbre do método de trabalho de Artemisia”, sugerindo que suas releituras de um mesmo tema não respondiam apenas a demandas comerciais, mas também a interesses artísticos próprios, como a experimentação de composições e influências visuais distintas.

Obras de Artemisia Gentileschi

O ressurgimento da obra acontece poucos meses após a National Gallery of Art adquirir outro retrato de Maria Madalena pintado por Gentileschi, intitulado ‘Maria Madalena em Êxtase‘. Datada de cerca de 1625, a pintura apresenta uma abordagem mais intimista e sensual da santa, em contraste com o tom mais convencional da obra agora levada a leilão.

‘Maria Madalena em Êxtase’, de Artemisia Gentileschi / Crédito: Divulgação/Galeria Nacional de Arte

A trajetória da própria Gentileschi também ajuda a explicar o interesse renovado por sua produção. Nascida em Roma em 1593, ela foi treinada pelo pai, o pintor Orazio Gentileschi, e se consolidou como uma das artistas mais importantes do barroco europeu.

Ainda jovem, Gentileschi enfrentou um julgamento traumático após denunciar um estupro cometido por um artista ligado ao ateliê de seu pai. Durante sete meses de processo, foi submetida a tortura e interrogatórios, mas manteve seu relato. “Eu disse a verdade e sempre direi, porque é a verdade e estou aqui para confirmá-la sempre que necessário”, testemunhou.

Após o julgamento de 1612, ela se mudou para Florença, onde conquistou prestígio entre patronos influentes, como a família Medici. Sua obra se destacou por retratar mulheres em posições de força e protagonismo, em um período dominado por artistas homens, repercute a Smithsonian Magazine.

Na avaliação de Mark MacDonnell, o quadro mutilado de Maria Madalena carrega um simbolismo que vai além da perda material. “É a personificação da sobrevivência contra todas as probabilidades”, diz ele, “reminiscente da história de vida da própria artista”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.