Notícias / Raimundo Carrero

Morre Raimundo Carrero, escritor e um dos criadores da lenda da perna cabeluda

Um dos criadores da "lenda da perna cabeluda", representada em "O Agente Secreto", o escritor pernambucano Raimundo Carrero morreu aos 78 anos

Raimundo Carrero / Crédito: Reprodução/Instagram

O jornalista e escritor pernambucano Raimundo Carrero morreu nesta segunda-feira, 15, aos 78 anos. Reconhecido por sua extensa produção literária e por ter ajudado a popularizar a lenda urbana da “perna cabeluda”, ele havia sido diagnosticado recentemente com câncer.

Natural de Salgueiro, no sertão de Pernambuco, Carrero construiu uma trajetória marcante na literatura brasileira, com mais de duas dezenas de livros publicados ao longo da carreira. Em 2015, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que deixou sequelas no lado esquerdo do corpo.

Sua obra recebeu importantes reconhecimentos. Em 2000, conquistou o Prêmio Jabuti com o romance “As Sombrias Ruínas da Alma”. Anos antes, em 1996, foi agraciado com o Grande Prêmio APCA da Crítica e o Prêmio Machado de Assis por “Somos pedras que se consomem”.

Entre os títulos que marcaram sua produção estão “Sombra severa” (2001), “O delicado abismo da loucura” (2005), “A preparação do escritor” (2009), “Colégio de freiras” (2020), “Estão matando os meninos” (2020) e “A luta verbal: a preparação do escritor” (2022), repercute o portal Splash, do UOL.

A perna cabeluda

Além da literatura, Carrero também ficou conhecido por sua participação na criação da lenda da “perna cabeluda”, uma das histórias mais populares do imaginário pernambucano. A narrativa, que ganhou força na década de 1970, voltou a chamar atenção nos últimos anos ao ser retratada em “O Agente Secreto”, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho indicado às categorias de melhor filme e melhor filme estrangeiro no Oscar deste ano.

A origem da história remonta ao período em que Carrero escrevia para o Diário de Pernambuco. Em entrevista concedida ao Splash no ano passado, ele relembrou o episódio que deu início à lenda. Segundo o escritor, tudo começou quando encontrou um jovem ensanguentado nas escadarias do jornal. “Ele disse que foi a perna cabeluda. Eu disse: ‘O que é isso?'”.

A repercussão da história foi imediata e cresceu rapidamente entre os leitores. “A partir da crônica, a perna ganhou uma dimensão incrível. As pessoas que se machucavam, ou que por algum motivo se envolviam em brigas, bebedeiras ou confusões, vinham procurá-lo dizendo que apanharam da perna cabeluda”, disse Raimundo Carrero a Splash em 2025.

O contexto político da época também contribuiu para a disseminação da narrativa. Durante a ditadura militar, a censura impunha restrições severas ao conteúdo publicado nos jornais, o que abriu espaço para histórias ligadas ao imaginário popular. “Como as pessoas não podiam falar em política ou movimentos sociais, era mais fácil trabalhar com o imaginário”, explicou Raimundo.

Em outra reflexão sobre o significado da lenda, o escritor afirmou: “A perna representava socialmente as mentes conservadoras querendo punir os mais jovens. Foi a época em que os movimentos de contracultura invadiram o país. Havia todos aqueles cabeludos, roqueiros e mocinhas de minissaia”.

Membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2004, Raimundo Carrero será velado na sede da instituição. Até o momento, o horário da cerimônia não foi divulgado.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.