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Mistério de séculos: DNA revela a origem do Homem de Ouro

Estudo genético indica que a elite cita herdava seu status por linhagem e esclarece a identidade do famoso Homem de Ouro

Uma reconstrução do "Homem de Ouro", um jovem cita da elite que foi exumado em 1969 no cemitério de Issyk, no Cazaquistão. - Licença: Creative Commons/(Altair07)

O chamado “Homem de Ouro”, um dos achados arqueológicos mais emblemáticos da Ásia Central, voltou ao centro das atenções graças a uma nova pesquisa genética. Análises de DNA revelaram que os integrantes da elite dos citas herdavam seu elevado status social por meio da linhagem familiar, evidenciando um sistema de poder dinástico que não havia sido observado anteriormente entre os povos da região durante a Idade do Bronze.

De acordo com a CNN, os resultados também ajudaram a solucionar uma dúvida antiga envolvendo o famoso guerreiro encontrado no Cazaquistão. Apesar do apelido pelo qual ficou conhecido, ainda existiam questionamentos sobre seu sexo biológico. A nova análise indica que o indivíduo era, muito provavelmente, do sexo masculino e pertencia ao grupo meridional dos citas conhecido como Sacas.

As conclusões foram obtidas a partir da comparação do DNA de dezenas de indivíduos enterrados em diferentes sítios arqueológicos e publicadas na revista científica Science Advances.

Uma elite ligada pelo parentesco

Os pesquisadores analisaram amostras genéticas de 85 indivíduos pertencentes à Idade do Ferro. Desse total, 38 eram provenientes de sepultamentos considerados de elite, enquanto outros 47 pertenciam a indivíduos sem esse status social.

Ao comparar os genomas, os cientistas identificaram laços familiares entre membros da elite, inclusive entre grupos separados por grandes distâncias geográficas. Segundo o estudo, os indivíduos de maior prestígio apresentavam características genéticas semelhantes, indicando ancestralidade comum e sugerindo que formavam um subgrupo dentro da população cita.

Essa descoberta representa a primeira evidência genética de que o poder era transmitido entre parentes, reforçando a existência de uma organização baseada na herança familiar.

Segundo os pesquisadores, esse modelo marca o surgimento de uma desigualdade social que não havia sido registrada anteriormente entre os povos nômades da estepe eurasiática durante a Idade do Bronze.

O mistério do Homem de Ouro

Uma reconstrução do “Homem de Ouro”, um jovem cita da elite que foi exumado em 1969 no cemitério de Issyk, no Cazaquistão. – Domínio Público: Creative Commons/(Idot)

O túmulo do Homem de Ouro foi escavado em 1969, no Cazaquistão, e data aproximadamente do período entre 400 a.C. e 300 a.C. O sepultamento impressionou arqueólogos pela riqueza dos objetos encontrados.

Entre os artefatos estavam armas de ferro, peças de bronze, uma tigela de prata e mais de 4 mil ornamentos de ouro, responsáveis pelo apelido atribuído ao guerreiro.

Para solucionar as dúvidas sobre sua identidade, os cientistas utilizaram marcadores distribuídos por todo o genoma e recorreram a métodos estatísticos para reconstruir trechos do DNA que haviam sido danificados pelo tempo.

Os resultados apontaram que o famoso personagem era geneticamente do sexo masculino e integrava o grupo dos Sacas, um dos subgrupos dos citas.

Sepultamentos revelam poder hereditário

Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a grandiosidade dos kurgans, os monumentais túmulos construídos para membros da elite.

Essas estruturas podiam atingir até 15 metros de altura e mais de 100 metros de diâmetro. Em seu interior eram encontrados corredores, catacumbas e câmaras laterais que frequentemente abrigavam restos mortais de animais e familiares do indivíduo principal.

Os cientistas também observaram que muitos corpos apresentavam sinais de mumificação ou trepanação pós-morte, prática que consistia na perfuração do crânio para remoção do cérebro. Segundo os autores, esses procedimentos provavelmente ajudavam a preservar os corpos enquanto os elaborados rituais funerários eram preparados.

Em um dos casos analisados, um homem da elite e dois de seus netos foram encontrados em cemitérios diferentes, separados por quase 100 quilômetros. Para os pesquisadores, essa relação familiar reforça a ideia de que o prestígio era transmitido entre gerações.

Mulheres também ocupavam posições de destaque

A pesquisa mostrou ainda que o poder entre os citas não era exclusivo dos homens.

Quase metade dos indivíduos de elite analisados eram mulheres. Seus túmulos apresentavam construções elaboradas, além de cavalos, vestimentas refinadas e objetos de grande valor, indicando que elas também ocupavam posições de elevado prestígio na sociedade.

Entre os exemplos está a chamada “Princesa de Urdzhar”, encontrada usando um elaborado cocar de ouro semelhante ao do Homem de Ouro. Em seu kurgan, os arqueólogos também localizaram um altar de pedra e plantas medicinais, elementos que sugerem que ela poderia desempenhar funções ligadas ao xamanismo.

Os pesquisadores afirmam que a descoberta amplia o entendimento sobre a organização social dos citas e abre caminho para novas investigações sobre o papel das mulheres e sobre os fatores que levaram ao surgimento de uma elite hereditária entre esses povos nômades.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes