Fóssil de 500 milhões de anos revela origem das aranhas, escorpiões e carrapatos
Análise de fóssil com 500 milhões de anos revela ancestral marinho dos quelicerados, grupo de artrópodes que inclui aranhas, escorpiões e carrapatos

Uma nova análise de um fóssil descoberto há mais de quatro décadas está ajudando cientistas a compreender melhor as origens de um dos grupos mais diversos de artrópodes da atualidade. O estudo descreve um predador marinho de aproximadamente 500 milhões de anos que pode representar o mais antigo exemplar conhecido dos quelicerados — grupo que inclui hoje aranhas, escorpiões, carrapatos e caranguejos-ferradura.
Os resultados foram publicados em 1º de abril na revista Nature e se baseiam na reavaliação de um espécime encontrado na Formação Wheeler, em Utah, nos Estados Unidos. O fóssil foi originalmente coletado pelo amador Lloyd Gunther e doado em 1981 ao Instituto de Biodiversidade e Museu de História Natural da Universidade do Kansas, onde permaneceu por décadas antes de ser reexaminado.
A redescoberta ocorreu em 2019, quando o paleontólogo Rudy Lerosey-Aubril, da Universidade de Harvard, decidiu limpar o material. Durante o processo, ele identificou uma estrutura incomum. “Levei alguns minutos para perceber o óbvio: eu tinha acabado de expor a quelícera mais antiga já encontrada”, afirmou em comunicado. Ele também destacou a relevância do achado: “É um fóssil muito bonito”. Segundo relatou o pesquisador ao Science News, “o mais incrível é que ele está em nossa coleção há décadas.”
O animal, batizado de Megachelicerax cousteaui, apresenta características consideradas fundamentais para a identificação dos quelicerados, especialmente a presença de quelíceras — apêndices em forma de pinça localizados próximos à boca. Essas estruturas são utilizadas por espécies modernas para funções variadas, como injetar veneno ou manipular alimentos.
Com cerca de 8,4 centímetros de comprimento, o organismo possuía um corpo relativamente complexo para sua época. A análise microscópica revelou um escudo cefálico, nove segmentos corporais e seis pares de apêndices relacionados à alimentação e à percepção do ambiente. Além disso, o fóssil indica a presença de estruturas respiratórias sob o corpo, semelhantes às brânquias em forma de placa encontradas em caranguejos-ferradura atuais.

Até então, o registro mais antigo de um quelicerado datava de cerca de 480 milhões de anos. Embora cientistas já suspeitassem que o grupo tivesse origens mais antigas, fósseis anteriores não apresentavam evidências claras das características distintivas, como as pinças. Como observou o paleobiólogo James Lamsdell, em comentário que acompanha o estudo, “definir qualquer um desses candidatos como um ancestral inequívoco dos quelicerados provou ser impossível”.
A nova descoberta, portanto, amplia significativamente o entendimento sobre a evolução desse grupo. “Isso nos mostra que, em meados do período Cambriano, quando as taxas de evolução eram notavelmente altas, os oceanos já eram habitados por artrópodes com complexidade anatômica que rivalizava com as formas modernas”, afirmou Javier Ortega-Hernández, coautor do estudo.
Divergências
Apesar disso, há divergências entre especialistas quanto à classificação do novo fóssil. O paleontólogo Jean-Bernard Caron, do Museu Real de Ontário, destacou que um estudo anterior, de 2019, já havia descrito um artrópode possivelmente mais antigo com características semelhantes, incluindo “quelíceras robustas, porém curtas”.
Ainda assim, Caron reconhece a importância do novo achado. “Megachelicerax pode ter sido o primeiro com quelíceras grandes, e isso pode atestar que esse grupo era mais diverso em seus primórdios” do que se pensava anteriormente. A presença de pinças bem desenvolvidas no fóssil reforça a ideia de que os quelicerados já estavam estabelecidos durante o período Cambriano, mesmo que ainda não ocupassem posições ecológicas dominantes, repercute a Smithsonian Magazine.
Para Lerosey-Aubril, as evidências apresentadas pelo Megachelicerax cousteaui são particularmente convincentes. “Não há mais debate”, afirmou, ao defender que o fóssil representa o registro mais antigo conhecido do grupo.
O estudo sugere que, já há cerca de meio bilhão de anos, os oceanos abrigavam formas de vida com níveis de complexidade comparáveis aos de organismos atuais, indicando que a diversificação dos artrópodes pode ter ocorrido de maneira mais rápida e precoce do que se imaginava.