Empresa quer lançar espelhos no espaço, mas cientistas acendem alerta
Plano de empresa para iluminar a Terra à noite com espelhos no espaço gera alerta de cientistas sobre riscos aos ecossistemas e à astronomia

A startup californiana Reflect Orbital revelou um projeto extremamente ambicioso para lançar milhares de espelhos ao espaço.
Consequentemente, a iniciativa inédita promete fornecer “luz solar sob demanda” para a superfície da Terra, beneficiando especialmente usinas de energia solar e áreas atingidas por desastres. No entanto, a proposta inovadora já desperta sérias preocupações ambientais, biológicas e científicas entre os especialistas.
O projeto
De acordo com informações do Daily Mail, a empresa aguarda a aprovação oficial da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA para lançar um protótipo inicial de 18,3 metros ainda neste verão.
Segundo Ben Nowack, diretor executivo da companhia, o objetivo central é criar uma alternativa viável para substituir os combustíveis fósseis e fornecer energia contínua para todo o planeta. Por isso, o cronograma estratégico prevê a operação de 1.000 satélites até o ano de 2028, alcançando a marca de 50.000 espelhos em órbita até 2035.
A princípio, quem observar os satélites do solo verá apenas um ponto brilhante com intensidade similar à da Lua. Além disso, o custo estimado pela empresa será de aproximadamente US$ 5.000 por hora de luz refletida, exigindo dos clientes contratos anuais de pelo menos 1.000 horas.
Apesar de parecer uma ideia totalmente inovadora, essa abordagem não é totalmente inédita, uma vez que o satélite russo Znamya testou um conceito de espelho espacial semelhante no ano de 1993.
Riscos ambientais e biológicos
Por outro lado, pesquisadores e ativistas alertam rigorosamente para os perigos dessa iluminação artificial constante durante a noite. Martha Hotz Vitaterna, renomada neurobióloga da Universidade Northwestern, destaca que as implicações dessa tecnologia para toda a vida na Terra são simplesmente enormes.
Dessa forma, a alteração drástica dos ritmos circadianos pode desregular o ciclo natural de sono humano, além de confundir severamente o período reprodutivo e as rotas migratórias de diversos animais.
Além disso, o grupo de conscientização DarkSky reforça que a introdução contínua dessa nova fonte de iluminação representa graves riscos para os frágeis ecossistemas noturnos. Infelizmente, a legislação atual da FCC não obriga a agência a avaliar os impactos ambientais terrestres ao licenciar operações de equipamentos no espaço.
Ameaça à astronomia
Para além dos problemas biológicos, a comunidade astronômica internacional também expressa uma grande apreensão com o avanço do projeto.
O astrônomo Gaspar Bakos, pesquisador da Universidade de Princeton, alerta de maneira contundente que a luz refletida e dispersa na atmosfera aumentará drasticamente o brilho da poluição luminosa. Por isso, ele defende que a Reflect Orbital seja absolutamente impedida de colocar seus espelhos em órbita terrestre.
Enquanto corporações espaciais como a SpaceX tentam escurecer seus satélites para não atrapalhar as observações, a nova startup busca exatamente o efeito visual contrário.
Afinal, a promessa atrativa de gerar energia limpa ininterrupta colide frontalmente com a necessidade de preservação do céu noturno e a manutenção do equilíbrio biológico de nosso planeta.
*Sob supervisão de Éric Moreira