Cachalotes se comunicam como se utilizassem vogais como os humanos, aponta estudo
Segundo estudo, os sons emitidos pelas cachalotes podem ser comparados a vogais, que são elementos fundamentais na estrutura da linguagem humana

Um novo estudo realizado pela Universidade da Califórnia, Berkeley, em colaboração com o Project CETI (Cetacean Translation Initiative), revelou surpreendentes semelhanças entre a comunicação dos cachalotes e a fala humana. De acordo com a pesquisa, os sons emitidos por essas baleias dentadas podem ser comparados a vogais, elementos fundamentais na estrutura da linguagem humana.
A pesquisa, que foi publicada na revista científica Open Mind em novembro, identificou a presença de duas vogais distintas nos vocalizações dos cachalotes: uma que se assemelha ao som do “a” e outra ao som do “i”. Além disso, os cientistas observaram padrões sonoros que se aproximam de ditongos, sugerindo uma troca controlada de sons durante a comunicação entre os indivíduos dessa espécie.
As vogais desempenham um papel crucial na comunicação verbal dos humanos, sendo produzidas pelo fluxo de ar através do aparelho fonador sem obstruções. Por outro lado, nos cachalotes, a produção de som ocorre através de lábios fônicos localizados próximos ao espiráculo, o que confere uma dinâmica diferente à sua comunicação, como destaca o portal Galileu.
O professor Gašper Beguš, coautor do estudo e membro da UC Berkeley, comentou sobre as implicações dessa descoberta. Segundo ele, enquanto pesquisas anteriores tratavam os chamados dos cachalotes como uma forma primitiva de código Morse, os novos dados indicam que suas vocalizações podem ser mais complexas, assemelhando-se a vogais emitidas de maneira muito lenta. Isso sugere uma profundidade na comunicação que se aproxima da linguagem humana.
O Project CETI é um esforço interdisciplinar composto por cientistas dedicados ao entendimento da comunicação entre cachalotes. Ao longo dos últimos cinco anos, a equipe tem utilizado tecnologia avançada, como etiquetas eletrônicas, boias e drones, para monitorar o comportamento desses cetáceos. O trabalho de Beguš incluiu o uso de modelos de inteligência artificial generativa para identificar padrões acústicos e explorar tanto a estrutura quanto o significado das vocalizações.
Resultados
Os resultados mostraram que as propriedades acústicas das comunicações dos cachalotes compartilham semelhanças com as vogais humanas em relação a comprimento, duração, frequência e trajetória. A análise das combinações vocais formando ditongos resultou em um entendimento mais sofisticado sobre as emissões sonoras desses animais, que vão além dos cliques e pulsos agudos normalmente associados a eles.
Para Beguš, a aplicação da linguística ao estudo da comunicação animal pode transformar radicalmente nossa percepção sobre linguagem e vida. A possibilidade de decifrar a comunicação dos cachalotes levanta questões éticas sobre a distinção entre humanos e outros seres vivos. O pesquisador acredita que tais avanços não apenas ampliam nosso conhecimento científico, mas também podem beneficiar iniciativas voltadas à conservação e aos direitos dos animais.
“Nós trocamos mundos interiores por meio da fala, através de vogais e consoantes. Este é um pequeno passo em direção à compreensão dos mundos interiores dos animais, de suas culturas e de suas inteligências“, conclui Beguš.