Animais complexos evoluíram bem antes do que se pensava, aponta estudo
Novo estudo analisou evidências que antecipam em milhões de anos o surgimento de animais capazes de se locomover em busca de alimento

Um estudo com fósseis encontrados na região noroeste do Canadá, publicado nesta quarta-feira, 20, sugere que animais complexos surgiram na América do Norte milhões de anos antes do que os cientistas imaginavam.
O sítio arqueológico em questão reúne mais de 100 fósseis, incluindo seis táxons jamais identificados anteriormente no continente, sendo que alguns deles datam de cerca de 567 milhões de anos. Conforme apontam os pesquisadores envolvidos, os achados surpreendentemente antecipam em vários milhões de anos o surgimento de animais capazes de se locomover em busca de alimento. O estudo foi publicado na revista científica Science Advances.
“Por 3 bilhões de anos, a vida na Terra foi dominada por micróbios”, afirmou o coautor da pesquisa, Scott D. Evans, curador assistente de paleontologia de invertebrados do Museu Americano de História Natural, em Nova York. Segundo ele, em determinado momento passaram a surgir organismos marinhos de aparência incomum, suficientemente grandes para serem vistos a olho nu e capazes de comportamentos considerados familiares atualmente. ” Se quisermos entender essa transição, quando a vida se tornou grande, complexa e inequivocamente animal, este novo local tem um potencial tremendo”, declarou, de acordo com informações do portal Live Science.
Primeiros organismos
Os primeiros organismos multicelulares complexos surgiram durante o período Ediacarano, que se deu entre 635 milhões e 541 milhões de anos atrás. Naquela época, destacam os pesquisadores, a América do Norte integrava Laurentia, antigo continente que precedeu a formação do supercontinente Pangeia.
Parte desses seres do Ediacarano possui relação com animais modernos, como moluscos e águas-vivas, mas outros não se assemelham a nenhuma espécie viva conhecida. Vale dizer que, como a maioria tinha corpos moles, isto é, não contavam com conchas ou ossos, os fósseis desse período são considerados raros.
Aqueles que foram encontrados foram divididos pelos pesquisadores em três conjuntos de acordo com a época em que os organismos viveram. O conjunto Avalon, datado entre 575 milhões e 559 milhões de anos atrás, reunia criaturas que habitavam regiões profundas do oceano. Já o conjunto do Mar Branco, entre 559 milhões e 550 milhões de anos atrás, apresentava maior diversidade de espécies vivendo em águas mais rasas. O conjunto Nama, entre 550 milhões e 538 milhões de anos atrás, incluía, por sua vez, os primeiros animais com conchas e esqueletos.
Ainda mais antigos
No novo estudo, os cientistas identificaram pela primeira vez na América do Norte fósseis pertencentes ao conjunto do Mar Branco. Os exemplares canadenses são de 5 milhões a 10 milhões de anos mais antigos do que fósseis semelhantes encontrados anteriormente na Europa, Ásia e Austrália.
Entre os organismos encontrados estão Dickinsonia, um ser ovalado e achatado que absorvia algas pela parte inferior do corpo; Funisia, criatura tubular considerada a evidência mais antiga de reprodução sexual entre animais; e Kimberella, um molusco primitivo que pode representar o mais antigo fóssil conhecido com simetria bilateral.
Para Justin Strauss, cientista da Terra do Dartmouth College e também coautor do estudo, o local pode transformar a compreensão dos cientistas sobre o período Ediacarano. “Este novo sítio não é apenas altamente diverso, mas também é de uma parte da sucessão rochosa onde antes não tínhamos restos fósseis”, afirmou. “Isso é realmente empolgante. Dado nosso entendimento da geologia regional no noroeste do Canadá, há um grande potencial aqui para revisitar nossa compreensão da história da Terra de Ediacar”, prosseguiu.
Novas hipóteses
Outro ponto a ser destacado é que os fósseis também podem alterar hipóteses sobre a evolução animal. Com base nos padrões sedimentares observados nas rochas, os pesquisadores concluíram que os organismos encontrados viviam em águas mais profundas do que se acreditava anteriormente para criaturas do conjunto do Mar Branco. Isso levanta a possibilidade de que os primeiros animais tenham evoluído inicialmente em regiões profundas do oceano e apenas depois migrado para áreas rasas. O processo é exatamente o oposto ao normalmente associado à evolução da vida animal.
“Pensamos no oceano profundo como um lugar escuro e inóspito, mas também é relativamente estável, com poucas flutuações em fatores como temperatura e oxigênio essenciais para a maioria da vida animal”, explicou Evans. Segundo o pesquisador, essa estabilidade pode ter criado condições favoráveis para o desenvolvimento dos primeiros animais da Terra.