Alcatrão revela como primeiros agricultores da Europa viviam há 6.000 anos
Novo estudo revela dependência de alcatrão de casca de bétula pelos primeiros agricultores da Europa, há 6.000 anos; entenda!

Na Europa Neolítica, antes mesmo da invenção da escrita e do uso de ferramentas metálicas, uma substância extraordinária se destacava: o alcatrão de bétula. Um estudo recente, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, revela que esse material negro e pegajoso, encontrado em assentamentos à beira de lagos nos Alpes, preservou um notável registro molecular sobre a vida, alimentação e atividades dos primeiros agricultores há cerca de 6.000 anos.
Os arqueólogos analisaram 30 amostras de alcatrão de bétula provenientes de nove sítios neolíticos na região alpina. Algumas foram encontradas como blocos soltos, enquanto outras eram resíduos extraídos de cerâmicas quebradas ou lâminas de sílex. Utilizando uma combinação de análises químicas e sequenciamento de DNA antigo, os pesquisadores confirmaram a origem das amostras e identificaram DNA humano, vegetal e microbiano retido nelas.
O alcatrão de bétula, obtido através do aquecimento da casca da árvore em condições de baixa oxigenação, já era reconhecido como uma das primeiras substâncias sintéticas criadas pelo ser humano, sendo utilizado principalmente como uma espécie de cola. No entanto, as descobertas recentes indicam que os indivíduos neolíticos faziam uso desse material para muito mais. Vários blocos apresentavam sinais de mastigação, contendo DNA humano de indivíduos do sexo masculino e feminino, além de vestígios de bactérias orais. Esses fragmentos funcionaram como registros moleculares eficazes dos humanos antigos.
A presença de DNA vegetal — incluindo cevada, trigo, ervilhas, avelã e faia — fornece indícios de que aqueles que mastigaram o alcatrão haviam consumido esses alimentos recentemente, revelando informações sobre a dieta dos neolíticos. Resinas de coníferas também apareceram em alguns dos blocos de alcatrão, possivelmente adicionadas para alterar a textura ou a força adesiva do material. Os cientistas acreditam que as pessoas mastigavam o alcatrão para amolecê-lo antes do uso ou até mesmo por motivos higiênicos ou medicinais.
Outros usos
Além da mastigação, o alcatrão também foi utilizado em tarefas cotidianas. O resíduo encontrado em rachaduras de cerâmica indica que serviu para reparar vasos quebrados. Nas lâminas de sílex, foi identificado onde a madeira tocava a pedra, confirmando sua função na fixação de ferramentas. Em algumas amostras de cerâmica, o alcatrão apresentava evidências de aquecimento repetido, sugerindo reutilização durante o cozimento ou armazenamento de alimentos.
Uma das descobertas mais surpreendentes deste estudo é a capacidade do alcatrão em atuar como conservante do DNA em situações onde os ossos humanos não podem ser recuperados. Os ambientes aquáticos dos assentamentos geralmente destruiriam materiais esqueléticos; no entanto, a natureza impermeável e estável do alcatrão garantiu a preservação das biomoléculas ao longo dos milênios. Cada pedaço mastigado ou fragmento resinoso se torna uma cápsula do tempo repleta de informações pessoais e culturais.
Este estudo ilustra como a combinação da análise de DNA antigo com o exame de resíduos orgânicos pode desvendar aspectos da vida pré-histórica que se acreditava estarem perdidos — identidade, dieta e tecnologia — tudo isso através de um pequeno pedaço de resina. As amostras de alcatrão demonstram a engenhosidade prática dos primeiros agricultores europeus em transformar materiais nativos em ferramentas versáteis e medicamentos, conforme repercute o Archaeology News.