Vítor Soares / Bizarro

O médico alemão que viveu com uma ‘noiva cadáver’ em busca do amor eterno

Em caso mórbido, médico radiologista roubou corpo de sua amada e o transformou em múmia, convencido de que poderia ressuscitá-la

Carl Tanzler e Maria Elena Milagro de Hoyos - Crédito: Wikimedia Commons/Florida Keys--Public Libraries

Um radiologista alemão nascido no século 19 protagonizou um dos casos mais mórbidos conhecidos da história americana. Carl Tanzler se apresentava como um homem de múltiplos talentos: dizia possuir nove diplomas universitários, ter servido como capitão de submarino e assinado diversas invenções científicas.

Na prática, porém, era um homem excêntrico que abandonou a esposa e os dois filhos para buscar uma nova vida na Flórida, onde começou a trabalhar em 1927 no United States Marine Hospital, em Key West.

Foi nesse hospital que ele conheceu Maria Elena Milagro de Hoyos, uma jovem de 21 anos, americana de origem cubana, diagnosticada com tuberculose. Para Tanzler, o encontro parecia predestinado. Ele dizia ter sido visitado por um espírito ancestral que lhe revelara que o amor de sua vida seria uma mulher “exótica, de cabelos escuros”. Quando viu Elena pela primeira vez, reconheceu nela a figura de seus sonhos.

Tomado por uma obsessão avassaladora, Tanzler se dedicou completamente à paciente. Levou equipamentos médicos para a casa da família Hoyos, administrou tônicos “especiais” e gastou grandes somas de dinheiro em remédios e presentes. Comprou até uma máquina de raio-X ilegalmente, acreditando que poderia curá-la. Tudo em vão. Em 25 de outubro de 1931, Elena morreu, deixando o médico devastado.

Post-mortem

Inconformado, Tanzler se ofereceu para pagar todas as despesas do funeral e mandou construir um elaborado mausoléu para ela no cemitério de Key West. Com a permissão da família, ele guardou consigo a chave do túmulo.

De acordo com o portal Galileu, por quase dois anos, visitou o local todas as noites. Estranhamente, o homem conversava com o corpo da jovem e dizia ouvir sua voz pedindo para que a libertasse. Quando suas visitas se tornaram alvo de comentários e suspeitas, ele foi demitido do hospital. Mas sua loucura só cresceu.

Em uma noite, no ano de 1933, Tanzler entrou no cemitério com um pequeno carrinho de mão e retirou o cadáver do mausoléu. Ele levou o corpo para casa e o instalou em um laboratório improvisado dentro da fuselagem de um avião abandonado.

Foi então que, diante do estado avançado de decomposição, o médico começou a “reconstruir” sua amada: usou fios, gesso, seda e cera para moldar a pele; substituiu os olhos por olhos de vidro; e colocou uma peruca feita com os próprios cabelos de Elena, que ele havia conseguido com a mãe da jovem.

O cadáver da jovem com máscara mortuária – Crédito: Wikimedia Commons/Florida Keys–Public Libraries

Noiva eterna

Para disfarçar o cheiro da decomposição, Tanzler banhava o cadáver com perfumes e óleos aromáticos. Ele também, perfumava o ambiente e vestia o corpo com roupas novas — que comprava com frequência, o que logo despertou a curiosidade dos vizinhos. Acreditando que vivia uma espécie de romance eterno, o radiologista dormia ao lado do cadáver todas as noites.

Durante sete anos, Carl Tanzler viveu com o corpo de Elena, convencido de que poderia ressuscitá-la. Ele afirmava estar construindo uma aeronave especial para levá-la à estratosfera, onde a radiação cósmica “penetraria seus tecidos” e devolveria a vida à mulher que amava.

A farsa terminou em 1940, quando Nana, a irmã de Elena, ouviu rumores sobre o comportamento estranho do médico e resolveu confrontá-lo. Ao entrar em sua casa, encontrou o que parecia ser uma boneca de cera — mas, após exames, a polícia descobriu que se tratava do cadáver de Elena Hoyos.

Durante a autópsia, peritos observaram um tubo inserido no canal vaginal da morta, com a finalidade de manter as partes íntimas preservadas. As autoridades, no entanto, nunca confirmaram se houve penetração.

Preso, mas com apoio

Preso e julgado por profanação de túmulo e remoção de cadáver sem autorização, Tanzler surpreendentemente recebeu apoio popular. Afinal, muitos o viam como um “romântico trágico”. O tribunal acabou inocentando-o, já que os crimes haviam prescrito — na época, o prazo para esse tipo de julgamento era de apenas dois anos.

Enquanto isso, a imprensa transformou o caso em espetáculo. O corpo de Elena foi exposto ao público em uma casa funerária, atraindo cerca de sete mil curiosos. Depois, para evitar novas violações, ela foi enterrada em um túmulo sem nome, onde finalmente pôde descansar.

Carl Tanzler, por sua vez, viveu o restante de seus dias em relativo isolamento, mas sem abandonar sua fixação. Ele pediu, sem sucesso, que o corpo de Elena lhe fosse devolvido. Em sua casa, manteve até o fim da vida uma escultura de cera em tamanho real da jovem, envolta em seda e coberta com uma máscara mortuária moldada a partir de seu rosto. Morreu em 1952, aos 75 anos, ainda acreditando que havia conhecido o amor eterno.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.