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Chegando a 600°C: exoplaneta gigante revela órbita extrema nunca vista antes

Observações do James Webb mostram que o exoplaneta HD 80606 b sofre mudanças térmicas violentas durante sua aproximação da estrela

O planeta localizado a 190 anos-luz da Terra se aproxima tanto de sua estrela hospedeira que atinge temperaturas extremas. - Foto: Joseph Olmsted (STScI)/NASA, ESA, CSA

O universo continua revelando mundos que desafiam o que os cientistas imaginavam ser possível. Um deles é o exoplaneta HD 80606 b, conhecido como “Planeta Assado”, que acaba de ter suas características analisadas com mais detalhes pelo Telescópio Espacial James Webb. As novas observações confirmaram que o planeta está entre os mais quentes já conhecidos e revelaram que sua órbita é ainda mais extrema do que se pensava.

Localizado a cerca de 190 anos-luz da Terra, o HD 80606 b foi descoberto em 2001 e possui aproximadamente quatro vezes a massa de Júpiter. O planeta orbita uma estrela localizada na constelação da Ursa Maior, mas seu comportamento é muito diferente do observado na maioria dos gigantes gasosos conhecidos.

Uma órbita parecida com a de um cometa

Enquanto muitos planetas gigantes próximos de suas estrelas apresentam trajetórias mais circulares, o HD 80606 b segue uma órbita extremamente ovalada, semelhante ao caminho percorrido por um cometa.

Essa característica faz com que o planeta passe grande parte do tempo relativamente distante de sua estrela hospedeira. Porém, durante o momento de maior aproximação, a situação muda completamente: o mundo enfrenta um aumento intenso de temperatura em um período muito curto.

Com os dados obtidos pelo James Webb, os pesquisadores descobriram que a temperatura do exoplaneta ultrapassa 600°C durante essa aproximação. O fenômeno ocorre de maneira rápida, já que o HD 80606 b completa uma órbita ao redor de sua estrela a cada 111 dias.

Segundo os cientistas, um observador localizado no planeta veria a estrela aumentar cerca de 30 vezes de tamanho aparente no céu durante esse processo de aproximação.

James Webb revela mudanças no planeta

A descoberta só foi possível graças à capacidade de espectroscopia do Telescópio James Webb. Essa técnica permite separar a luz recebida pelo instrumento em diferentes comprimentos de onda, revelando informações sobre a composição química e a temperatura de objetos distantes.

Ao analisar os dados do planeta durante diferentes momentos de sua órbita, os pesquisadores conseguiram observar alterações nas moléculas presentes em sua atmosfera e acompanhar como elas mudam conforme o mundo se aproxima ou se afasta de sua estrela.

Essas informações ajudaram a compreender melhor como um planeta pode responder a variações extremas de energia recebida de sua estrela hospedeira.

Um laboratório natural para estudar exoplanetas

Comparação das órbitas que podem ser encontradas no nosso Sistema Solar e a órbita realizada pelo HD 80606 b em sua estrela hospedeira. – Foto: Planet Quest New Worlds Atlas/NASA

Apesar de ser um ambiente completamente diferente da Terra, o HD 80606 b pode ajudar os cientistas a entender outros mundos gigantes gasosos.

A pesquisadora Laura C. Mayorga, do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, destacou que a órbita incomum do planeta transforma o exoplaneta em um laboratório natural extremamente eficiente.

Segundo ela, observar um mundo com mudanças tão intensas de temperatura e composição química permite reunir informações em poucas horas que podem ser aplicadas ao estudo de outros “Júpiteres quentes” e de exoplanetas mais semelhantes aos conhecidos atualmente.

O James Webb assumiu o papel de sucessor do Telescópio Espacial Spitzer na investigação do sistema planetário do HD 80606 b e ainda possui novos dados que poderão revelar mais detalhes sobre esse planeta extremo, repercute a Revista Galileu.

A cada nova observação, o telescópio amplia a compreensão dos pesquisadores sobre a diversidade dos sistemas planetários existentes no Universo, incluindo mundos onde as condições são tão severas que parecem pertencer a outro tipo de realidade.


*Sob supervisão de Éric Moreira