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Estudiosos mostram a importância dos solos em mais de 17 mil guerras

Estudiosos relacionam tipos de solos com conceitos da geopolítica para analisar dados de mais de 17 mil guerras; interferência surpreende

Pintura da Batalha de Waterloo, uma das mais de 17 mil guerras descrtitas pelo estudo
Pintura da Batalha de Waterloo, uma das mais de 17 mil guerras descrtitas pelo estudo - Créditos: Getty Images

Recentemente, um estudo publicado na Total Environment Advances relacionou estudos da pedologia com conceitos da geopolítica para analisar dados de mais de 17 mil guerras. Assim, conflitos desde a Antiguidade até o século 21 sofrem influência direta do tipo do solo local e as suas interferências.

Por exemplo, em junho de 1815, Napoleão Bonaparte com um exército de 70 mil homens estava em Waterloo. O temido exército francês tinha de derrotar o exército britânico que residia em terras mais altas. Contudo, a invasão que parecia simples para os canhões e cavalos franceses se tornou um verdadeiro pesadelo com as chuvas que caíram no dia 18 sob o campo de batalha.

A forte chuva transformou o terreno em um lamaçal, complicando a movimentação dos canhões e cavalos. Assim, os tiros que antes ricocheteavam no solo e destruiam as tropas e prédios por rebote, afundaram e se prendiam na lama. Já os cavalos, logo viraram enormes alvos de 2 metros de comprimento em meio ao campo de batalha.

Contudo, o solo que foi a queda de Napoleão é o mesmo solo fértil que manteve civilizações vivendo no território por milênios. Inclusive, justamente por ser fértil e proveitoso para os impérios que o território foi disputado. Ou seja, a natureza do solo interferiu diretamente na construção e no desenrolar da guerra. Mas a batalha de Waterloo é apenas uma das 17 mil guerras estudadas pelo artigo.

Os estudos do solo

Conforme os estudiosos responsáveis pelo artigo, para o trabalho foram levados em conta fatores como: textura, drenagem, fertilidade, estabilidade, entre diversos outros pontos que envolvem o solo.

Assim, juntando dados de satélite, pedologia e história, os pesquisadores relacionam a influência do solo em guerras históricas entre 1468 a.C. e 2003. Gian Franco Capra, professor da Universidade de Sassari e primeiro autor do artigo, disse:

Na ciência do solo, frequentemente discutimos os modos pelos quais as guerras resultam em danos ao solo. Mas raramente nos questionamos sobre como o próprio solo ajuda a moldar as guerras”.

Ao mesmo tempo debatem sobre como, nos dias de hoje, e com os avanços das mudanças climáticas, cada vez mais a questão do controle dos solos férteis e os recursos naturais interferem nas decisões geopolíticas e conflitos internacionais. Capra diz:

O mesmo solo que sustenta a agricultura e os assentamentos humanos também influencia a forma como estradas se deterioram sob a chuva, como trincheiras permanecem estáveis, como poluentes se acumulam e como patógenos se proliferam em acampamentos militares. […] O solo não decide onde as guerras começam, mas ajuda a determinar como elas se desenvolvem e qual será o seu custo humano e ambiental.”

Exemplos da interferência do solo em mais de 17 mil guerras

De acordo com Rafael Barroca Silva, doutor em Ciência Florestal pela Faculdade de Ciências Agrárias da Unesp, a derrota de Waterloo se deu em uma região de luvissolos, que são ricos em argila (pouco permeáveis) e os cambissolos, solos minerais que formam os lamaçais.

O cambissolo apesar de ser péssimo para os contextos de guerra, ainda está envolvido em quase 20% dos conflitos estudados. Uma vez que a fertilidade da região atrai interesse em dominação pelo local.

Só para exemplificar, podemos citar os constantes conflitos na região entre os rios Tigre e Eufrates. Na região, o luvissolo formado nos deltas dos rios, durante a Idade do Bronze, foi alvo de cobiça pelos povos invasores. Ao mesmo tempo, o território é mais firme que o solo arenoso, permitindo a edificação de fortificações e possibilitando uma proteção territorial. Silva complementa:

São solos com boa drenagem, com uma firmeza de terreno bastante interessante. Essa firmeza se mostrou excelente, por exemplo, para dar passagem às carruagens militares usadas em conflitos”

Mas destaca: a extensiva exploração do solo mesopotâmico fez com que a famosa fertilidade da Antiguidade se perdesse. Ou seja, o terreno tem de ser analisado na sua fertilidade do momento, pois, segundo a revista da Unesp, se os pesquisadores não considerassem isso, o estudo estaria errado e incompleto.

Na América Latina, serve de exemplo a Guerra do Paraguai. Entre os anos de 1864 a 1870, os terrenos percorridos pelos exército brasileiro fez com que as tropas se cansassem mais, andassem menos e tivessem mais chances de ficarem atoladas. Antonio Ganga, também professor da Universidade de Sassari e coautor do estudo pontuou:

As campanhas ao longo dos rios Paraguai e Paraná foram profundamente condicionadas por solos mal drenados, sujeitos a inundações e áreas alagadiças. […] Essas características dificultavam o deslocamento de tropas, a movimentação da artilharia e das linhas de abastecimento.”

Ao mesmo tempo, os períodos de chuvas intensas transformaram rotas estratégicas em grandes poças de lama, dificultando até mesmo a alimentação dos soldados.

Ao mesmo tempo, o controle de áreas com solos mais estáveis e férteis, adequados para acampamentos e suprimentos, tornou-se uma importante vantagem estratégica. Tudo somado, a Guerra do Paraguai surge como um exemplo sul-americano marcante de como o solo pode atuar na guerra como um protagonista silencioso, mas decisivo”.

Embora existam outros historiadores que destaquem a importância do solo no contexto das guerras, por exemplo Fernand Braudel, esse estudo com o levantamento de dados é muito revelador e pode agregar muito para os estudos de conflitos ocorridos há milênios.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: