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Parente humano confunde cientistas com necrópole só para mulheres

O “Homo naledi” pode ter desenvolvido rituais complexos há 240 mil anos; necrópole só para mulheres gera dúvidas e curiosidade entre pesquisadores

Foto de arcada dentária de parente humano confunde cientistas com necrópole só para mulheres
Foto de arcada dentária de parente humano confunde cientistas com necrópole só para mulheres - Créditos: Divulgação/Matthew Berger

Devido à característica do esmalte dental preservar as proteínas do dente por milênios, os arqueólogos podem formular análises genéticas a partir das arcadas dentárias de antepassados humanos. Da mesma forma, ao encontrar vários dentes em uma caverna na África do Sul, os pesquisadores logo foram identificar de que espécie eram aquelas arcadas.

Entretanto, uma característica deixou os cientistas curiosos: todas eram potencialmente femininas. Ou seja, não tinham características físicas que distinguem os machos e as fêmeas dentre as ossadas. Ao mesmo tempo, as características dessas ossadas não são encontradas em mais nenhuma espécie de hominídeo, causando dúvidas ainda maiores nos cientistas.

Mais do que apenas fósseis, os dentes indicam que esses parentes podem ter tido práticas culturais complexas, ou até alguma genética estranha.

O Homo naledi 

Um artigo publicado recentemente na revista Cell trouxe novidades nas análises de um parente da humanidade. O Homo naledi foi descoberto pela primeira vez no sistema Rising Star Cave da África do Sul entre 2013 e 2015. Conforme a Popular Science, o espécime viveu entre 225.000 e 241.000 anos atrás.

Embora se saiba muito pouco sobre a vida desses hominídeos, suas arcadas dentárias revelam um uma mistura incomum de traços primitivos e características mais humanas. Contudo, os cientistas se indagaram o porquê dos restos da caverna apresentarem tão pouca variabilidade.

Geralmente, em necrópoles e cemitérios, uma das primeiras coisas que se distingue é quem são os machos das fêmeas através da ossada. Mas esses fósseis não tinham essa diferenciação. Por isso, para investigar esse caso bizarro, os cientistas foram investigar as proteínas de dentro dos dentes. 

Em uma técnica de gravura ácida, os cientistas extraíram fragmentos microscópicos de dentro dos dentes chamados peptídeos. Nessas proteínas é possível identificar o cromossomo Y, tipicamente masculino.

Porém, a equipe não encontrou nenhum desses marcadores genéticos masculinos dentro do esmalte dentário. Logo depois, para garantir que as proteínas eram genuinamente antigas e não o resultado da contaminação, realizaram mais testes nos aminoácidos. A Dra. Marc Dickinson, co-autora do estudo e químico analítico da Universidade de York, disse em comunicado:

A falta de marcadores masculinos com o grupo é realmente fascinante. […] É incrivelmente emocionante ganhar uma janela não apenas para a biologia de nossos ancestrais, mas também para como eles viviam.”

A necrópole só para mulheres

Dessa forma, a região de sepultamento potencialmente exclusivamente feminino abre novas perguntas em relação ao Homo naledi à cultura e à estrutura social. Pois, se a câmara for só de fêmeas, podemos falar de uma prática funerária avançada por seres não humanos e em períodos remotos.

De acordo com a equipe, há mais uma explicação possível, mas de caráter biológico. De acordo com os cientistas, é possível que o Homo naledi, por ser uma população altamente isolada, evoluiu para que o gene específico do macho mutasse ou fosse excluído inteiramente.

Desse modo, pode ser que neste caso os machos estejam presentes, mas seus dentes não tinham a assinatura genética típica vista em outros dentes masculinos. De qualquer modo, seja pelo aspecto cultural, seja pelo aspecto genético, o caso tem entusiasmado os cientistas a investigar sobre esses parentes extintos da humanidade.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: