Estação de antiga ‘Ferrovia da Morte’ é encontrada na Tailândia
Ferrovia da Morte foi construída sob condições extremas por prisioneiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial

A drenagem de um reservatório na província de Kanchanaburi, no oeste da Tailândia, revelou vestígios da chamada “Ferrovia da Morte“, a linha férrea construída durante a Segunda Guerra Mundial sob condições extremas por prisioneiros de guerra e trabalhadores asiáticos recrutados à força.
Entre as estruturas encontradas está a antiga Estação Nithe, que durante o conflito serviu como uma importante parada ao longo da ferrovia de cerca de 413 quilômetros que conectava a Tailândia, então conhecida como Sião, à Birmânia, atual Mianmar.
Embora períodos de seca já tenham reduzido ocasionalmente o nível da água, expondo partes da estação, nunca antes os vestígios haviam aparecido de forma tão clara quanto agora. Conforme explica o portal Smithsonian, a oportunidade surgiu após a Autoridade de Geração de Eletricidade da Tailândia esvaziar parcialmente o reservatório para realizar trabalhos de manutenção na Barragem Vajiralongkorn. Agora, pesquisadores estão examinando a infraestrutura. Eles utilizam-se, especialmente, de fotografias aéreas históricas e detectores de metal, e percorrem o local em busca de informações sobre o funcionamento da ferrovia e sobre as pessoas que trabalharam e sofreram ao longo de sua construção.
“Já fui à Estação Nithe três vezes no passado, mas o nível da água sempre foi alto demais para realmente apreciar as ofertas fantásticas que ela oferece com a infraestrutura restante e o layout da ferrovia em si”, disse Martyn Fryer, pesquisador australiano independente e neto de um prisioneiro de guerra que morreu na construção da ferrovia, à Associated Press.
A construção da ferrovia
A construção da ferrovia tornou-se prioridade para o Japão após a Batalha de Midway, em junho de 1942. Na época, a derrota naval comprometeu as rotas marítimas de abastecimento para a Birmânia, o que fez com que estrategistas japoneses buscassem uma alternativa terrestre para transportar tropas e suprimentos, em apoio aos seus planos de avançar em direção à Índia.
No entanto, a tarefa exigiu vencer um terreno montanhoso e coberto por densas florestas. Ao longo do trajeto foram erguidas cerca de 600 pontes, além de centenas de viadutos e aterros. Para acelerar os trabalhos, mais de 100 campos de trabalho forçado foram distribuídos ao longo da rota. Desse modo, diferentes equipes poderiam atual simultaneamente em diversos trechos.
Durante um ano, cerca de 60 mil prisioneiros de guerra e centenas de milhares de trabalhadores civis asiáticos foram submetidos a condições extremas para construir a ferrovia que, por sua vez, ligaria a Tailândia à Birmânia. Executada entre 1942 e 1943, a obra contou com militares capturados da Austrália, dos Estados Unidos, do Reino Unido e das então Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia. Estima-se que aproximadamente 12,5 mil prisioneiros de guerra e 75 mil civis tenham morrido em razão da fome, das doenças, da exaustão física e mesmo dos maus-tratos sofridos nos canteiros de obras.
Em entrevista concedida em 2018 ao jornalista Mark Simner, da Warfare History Network, o ex-prisioneiro britânico Reginald Twigg recordou as agressões que sofreu em um momento em que já se encontrava severamente debilitado. “Seu coração para. Você se sente tonto e mal. Você acha que vai se mijar e então sente a dor. Algo me atingiu na espinha e soube que era a coronha de um rifle”, relatou o sobrevivente. “Eu pesava cerca de sete stone [44 quilos] nessa época e meus ossos estavam saindo logo abaixo da pele. Então houve um segundo baque quando minhas pernas cederam, uma coronha de rifle na minha cabeça.”
Com o fim da guerra, a ferrovia foi desativada. Hoje, há alguns locais ao longo da rota que foram transformados em memoriais e destinos turísticos. É o caso do Hell Fire Pass e do Viaduto Wang Pho.