Conheça a casa dos Jackson, que recebeu Martin Luther King Jr. durante as lutas pelos direitos civis

Casa que foi ponto de encontro de ativistas durante os anos 1950 e 1960 foi transformada em museu; conheça a história desse impressionante imóvel

Fachada da residência dos Jackson; à direita, a jovem Jawana Jackson com Martin Luther King Jr. - Crédito: The Henry Ford

Objetos, documentos e mesmo construções podem guardar história. É o caso da casa da família Jackson, em Selma, estado do Alabama, que testemunhou momentos decisivos para o movimento pelos direitos civis nos EUA dos anos 1960. Após uma jornada de mais de 1.700 quilômetros, a residência ganhou um novo lar no Henry Ford Museum of American Innovation, localizado em Dearborn, nos arredores de Detroit. Ela agora faz parte do Greenfield Village, uma área histórica ao ar livre do complexo museológico conhecido como The Henry Ford, que reúne construções históricas transferidas de seus locais originais para preservação e exposição pública.

Jawana Jackson, filha dos antigos proprietários da casa, enxerga a mudança como uma oportunidade de ampliar o alcance da história vivida por sua família. Ela cresceu em Selma durante um dos períodos mais turbulentos da luta pela igualdade racial e lembra que, nos anos 1950 e 1960, sua casa foi ponto de encontro para líderes do movimento pelos direitos civis, que buscavam acabar com a segregação e garantir o direito de voto aos afro-americanos.

Seus pais, Sullivan Jackson, um dentista, e Richie Jean Sherrod Jackson, professora e posteriormente autora de um livro sobre o movimento de Selma, abriram as portas de sua residência para ativistas, líderes religiosos e políticos. Entre os visitantes mais frequentes estava o ilustre Martin Luther King Jr., que se hospedava ali durante suas visitas à cidade.

Amizade antiga

A relação entre os Jackson e os King era antiga. Richie Jean era amiga de infância de Coretta Scott King, esposa do líder dos direitos civis. Com o passar dos anos, a casa transformou-se em um dos principais centros informais de articulação do movimento em Selma.

Em 1965, Martin Luther King Jr. instalou-se por um longo período na casa dos Jackson. Durante semanas, ele e seus principais colaboradores utilizaram o imóvel como base de operações para organizar as famosas marchas de Selma a Montgomery em sua campanha pelo direito ao voto. A cidade já possuía uma longa tradição de ativismo local liderado por organizações afro-americanas, mas a presença de King e da Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC) ajudou a transformar a causa em uma questão de alcance nacional. Entre os frequentadores da residência estavam nomes importantes do movimento, como Andrew Young, Hosea Williams, James Bevel e C.T. Vivian.

Os Jacksons em casa – Crédito: The Henry Ford

Richie Jean Jackson desempenhava um papel central. Além de receber visitantes e organizar refeições para os ativistas, ela ajudava a manter a privacidade necessária para reuniões estratégicas. A casa tornou-se um espaço onde líderes políticos, religiosos e defensores dos direitos civis podiam discutir planos longe dos holofotes.

Para Jawana, que era pequena na época, era difícil compreender completamente a dimensão dos acontecimentos. Mesmo assim, ela percebeu que os telefonemas e reuniões frequentes e a presença de figuras conhecidas eram sinais de que algo extraordinário estava acontecendo.

“Quando tinha 4 anos, eu não conseguia entender as complexidades do que estava acontecendo, mas percebi que os sentimentos na casa haviam mudado. Quando você tem o presidente dos Estados Unidos ligando para a casa dos seus pais, quando você tem conversas regularmente, foi um momento incrível. Havia muita energia acontecendo em nossa casa que antes tinha mãe, pai e uma menininha. O mundo teve um Dr. Martin Luther King Jr.; Eu era uma garotinha que tinha um tio Martin em casa”, contou, segundo o portal Smithsonian.

De Selma a Montgomery

Entre os episódios mais marcantes ocorridos na residência está o planejamento da marcha final de Selma a Montgomery. Embora tenham ocorrido três tentativas de marcha em março de 1965, foi a terceira que entrou para a história. Antes dela, manifestantes enfrentaram forte repressão policial.

A primeira tentativa aconteceu em 7 de março de 1965 e ficou conhecida como “Domingo Sangrento”. Cerca de 600 manifestantes partiram de Selma em direção a Montgomery, mas foram violentamente atacados por policiais estaduais ao atravessar a Ponte Edmund Pettus.

Dois dias depois ocorreu uma segunda tentativa, liderada por King. Ao encontrar novamente as forças policiais bloqueando a passagem, os manifestantes fizeram uma oração coletiva e retornaram para Selma.

A Promessa Americana

Enquanto esses eventos se desenrolavam, a casa dos Jackson seguia sendo um dos principais centros de organização, tendo sido ali que King acompanhou, em 15 de março de 1965, um dos discursos mais importantes da história americana. Sentado na sala de estar da residência, ele assistiu ao pronunciamento do presidente Lyndon B. Johnson perante uma sessão conjunta do Congresso.

No discurso, que ficou conhecido como “A Promessa Americana”, Johnson declarou apoio ao movimento pelos direitos civis e utilizou a expressão “We Shall Overcome” (“Nós venceremos”), lema que havia se tornado símbolo da luta pela igualdade racial. Para milhões de americanos, aquela fala representou um sinal inequívoco de que a Casa Branca passava a apoiar publicamente as reivindicações dos manifestantes.

Poucos dias depois, em 21 de março, teve início a terceira e definitiva marcha de Selma a Montgomery. Organizada ao longo de semanas na casa dos Jackson, ela reuniu milhares de participantes em um percurso que durou quatro dias e terminou em 25 de março com cerca de 25 mil pessoas chegando à capital do Alabama.

O impacto da mobilização foi imediato. Ainda naquele mês, Johnson apresentou ao Congresso a proposta da Lei dos Direitos de Voto. A legislação seria aprovada apenas quatro meses depois, tornando-se um marco na história americana.

De residência a museu

Sullivan e Richie Jean Jackson seguiram vivendo na residência até suas mortes, em 2004 e 2013, respectivamente. Posteriormente, a filha do casal, consciente do papel histórico desempenhado pelo imóvel, decidiu transformá-lo em museu. Assim, em 2014, a casa foi aberta ao público. Em uma década, milhares de visitantes conheceram a propriedade.

Com o tempo, porém, Jawana começou a se preocupar com o futuro da residência. Sem herdeiros diretos que pudessem assumir a responsabilidade pela preservação do imóvel, ela concluiu que seria necessário encontrar uma solução capaz de garantir sua conservação a longo prazo. Foi então que decidiu entrar em contato com o Henry Ford Museum. Após diversas avaliações realizadas por historiadores, arquitetos, engenheiros e especialistas em preservação, o museu decidiu incorporar a residência ao seu acervo histórico.

Transferência da casa

A transferência da casa foi uma operação complexa. Isto porque a estrutura precisava percorrer mais de mil milhas até Michigan. Logo, para viabilizar a mudança, os especialistas precisaram desmontar cuidadosamente partes do imóvel de cerca de 186 metros quadrados datado de 1919, removendo o telhado, janelas, tijolos e diversos elementos arquitetônicos. Em seguida, a residência foi dividida em duas partes para o transporte rodoviário. Um comboio especializado conduziu cada seção por cinco estados americanos até chegar a Michigan. Depois a casa foi remontada em Greenfield Village.

Agora, visitantes podem percorrer os mesmos cômodos onde Martin Luther King Jr. dormiu, trabalhou e planejou algumas das ações mais importantes do movimento pelos direitos civis e, inclusive, podem observar a mesa onde líderes discutiram estratégias e ver impressionantes fotografias que registraram para a posteridade aquele importante movimento histórico.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.