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Sangue, petróleo e traição: A ascensão e queda da Romênia na Segunda Guerra

Do fornecimento milionário de barris ao desastre da Operação Tidal Wave, o país pagou um preço altíssimo antes de mudar de lado e acabar sob a cortina de ferro soviética

Antonescu e Adolf Hitler em Munique - Bundesarchiv

A Segunda Guerra Mundial costuma ser contada a partir de grandes batalhas, líderes carismáticos e exércitos gigantescos. Entretanto, por trás de cada tanque, avião ou caminhão militar existia uma necessidade básica sem a qual nenhuma ofensiva poderia ser sustentada: combustível. 

Nesse aspecto, poucos países tiveram importância tão decisiva para a Alemanha nazista quanto a Romênia. Pouco lembrada nas narrativas mais populares sobre a guerra, a Romênia exerceu um papel fundamental no funcionamento da máquina militar do Terceiro Reich. 

Sua contribuição foi tão relevante que, sem exagero, pode-se afirmar que ela funcionou como o principal posto de combustível de Hitler durante boa parte do conflito.

O país havia conquistado sua independência do Império Otomano em 1877, formando o Reino da Romênia a partir das regiões da Valáquia e da Moldávia. Após a Primeira Guerra Mundial, tornou-se uma nação relativamente próspera. 

Com quase 20 milhões de habitantes, possuía uma economia acima da média regional graças ao início da industrialização e, principalmente, à exploração de suas jazidas de petróleo, iniciada em larga escala a partir de 1927. 

A riqueza produzida pelo petróleo transformou a Romênia em uma peça estratégica para qualquer potência europeia. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico fortaleceu movimentos nacionalistas e antissemitas, especialmente a Guarda de Ferro, organização fascista liderada por Corneliu Codreanu

O grupo exerceu profunda influência sobre os rumos políticos do país durante os anos que antecederam a guerra.

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Aproximação com o Eixo

Em um primeiro momento, contudo, a Romênia não parecia destinada a se tornar uma aliada da Alemanha. Em 1939, respeitando a Aliança Polonês-Romena firmada em 1921, Bucareste facilitou a passagem de tropas polonesas por seu território quando a Polônia foi invadida. 

Além disso, permitiu que o governo polonês transferisse suas reservas de ouro através do Mar Negro, evitando que elas fossem capturadas pelo Terceiro Reich após a ocupação da França. Hitler não gostou. Mas agiu como costumava agir. Prometeu à Romênia a recuperação de territórios perdidos após a futura invasão da União Soviética. Em troca, exigiu que o fornecimento de petróleo continuasse sem interrupções. 

Os romenos acreditaram. Assinaram o Pacto Tripartite e aproximaram-se do Eixo sem saber que, em acordos secretos entre Alemanha e União Soviética, seu próprio país já havia sido incluído na esfera de influência soviética.

O resultado foi extraordinário. A Romênia tornou-se o principal fornecedor de petróleo do Terceiro Reich. Sua produção alcançava 100 mil barris por dia, quantidade suficiente para representar metade de todo o combustível necessário para movimentar a força militar nazista. 

Metade. Sem esse abastecimento, tanques, caminhões, navios e aviões alemães encontrariam enormes dificuldades para operar.

Reação Aliada

A dependência era tão grande que os Aliados transformaram as refinarias romenas em um de seus principais alvos. Em agosto de 1943, os Estados Unidos lançaram a Operação Tidal Wave. Bombardeiros B-24 partiram da Líbia para atacar os campos petrolíferos e refinarias de Ploiești. 

A missão, entretanto, encontrou forte resistência da Luftwaffe. Dos 177 aviões empregados na operação, 53 não retornaram às bases. O fracasso foi tão marcante que a imprensa americana passou a chamar o episódio de “Black Sunday”, o Domingo Negro.

Somente in 1944, utilizando bases mais próximas na Itália, os Aliados conseguiram destruir grande parte da infraestrutura petrolífera romena. A essa altura, a guerra começava a escapar do controle do Eixo. 

Enquanto isso, a Romênia pagava um preço cada vez mais alto pela aliança com Berlim. O país havia enviado mais de 600 mil soldados para a Operação Barbarossa, participando de 25 batalhas ao lado da Wehrmacht. 

Seus militares estiveram envolvidos em episódios como o Massacre de Odessa e a captura de Sebastopol, até sofrerem perdas devastadoras em Stalingrado.

Golpe de Estado e a Guerra Fria

A mudança de lado veio apenas em agosto de 1944. Com a entrada das tropas soviéticas no país, o jovem rei Miguel I liderou um golpe contra o regime pró-alemão de Ion Antonescu

A Romênia abandonou o Eixo e passou a combater seus antigos aliados. Cerca de 567 mil soldados romenos participaram dessa nova fase da guerra, agora ao lado dos Aliados.

Quando o conflito terminou, a Romênia havia perdido muito mais do que petróleo. Sofreu graves perdas humanas, destruição material e acabou integrada à esfera de influência soviética. Tornou-se uma República Popular e, posteriormente, integrante do Pacto de Varsóvia durante a Guerra Fria. 

Mas sua importância histórica permanece. Porque, durante anos, o combustível que movimentou a máquina de guerra nazista saiu dos campos petrolíferos romenos. E sem eles, a história da Segunda Guerra Mundial poderia ter sido muito diferente.


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