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Papa diz que história julgará líderes indiferentes à morte de migrantes

Durante visita às Ilhas Canárias, Leão XIV pediu mais humanidade no tratamento de migrantes e alertou para os riscos da indiferença diante da crise migratória

Papa Leão XIV em visita a Espanha - Getty Images

O papa Leão XIV fez um apelo aos líderes mundiais nesta quinta-feira, 11, para que tratem os migrantes com mais humanidade. Em visita às Ilhas Canárias, na Espanha, um dos principais destinos migratórios da Europa, o pontífice afirmou que a história condenará aqueles que permitirem o sofrimento de pessoas que fogem da guerra, da pobreza e de outras situações extremas em busca de uma vida melhor.

Segundo a CNN, em um discurso direcionado à Europa e à comunidade internacional, o papa classificou sua mensagem como um “apelo à consciência” dos líderes políticos. Segundo ele, a dignidade humana não deve ser condicionada à nacionalidade ou ao local de origem de uma pessoa.

“A dignidade humana não tem passaporte”

Durante a visita ao Porto de Arguineguin, em Gran Canaria, Leão XIV criticou a naturalização das mortes de migrantes que tentam atravessar rotas perigosas em direção à Europa.

O local ficou conhecido por organizações humanitárias como “Cais da Vergonha” após cerca de mil migrantes permanecerem em condições precárias no início da pandemia de coronavírus.

Diante de milhares de fiéis reunidos próximo a um memorial dedicado às pessoas que perderam a vida no mar, o pontífice afirmou que a sociedade não pode se acostumar a apenas contabilizar vítimas.

“Que a história não nos acuse de transformar a dor daqueles que sofrem em uma cena comum em nossas costas”, declarou. Segundo ele, em algum momento será necessário responder se a humanidade escolheu proteger vidas ou ceder à indiferença.

Visita a um dos principais destinos migratórios da Europa

Papa Leão XIV em visita a Espanha – Getty Images

As Ilhas Canárias estão localizadas na costa oeste da África e se tornaram uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam chegar ao continente europeu.

A viagem do papa ao arquipélago faz parte de uma visita de uma semana à Espanha. Na sexta-feira, 12, ele deverá se reunir com cerca de mil migrantes.

Durante sua passagem pelo porto, Leão XIV participou de um encontro com organizações não governamentais e instituições de caridade que atuam no auxílio a migrantes e refugiados.

Relatos de resgate e sobrevivência

O pontífice ouviu relatos de voluntários e profissionais envolvidos no resgate de pessoas em alto-mar. Entre eles estava o capitão Tito Villarmea, que afirmou ter participado do salvamento de aproximadamente 20 mil migrantes ao longo de 18 anos de trabalho.

Segundo ele, o número é impossível de esquecer e evidencia a dimensão da crise humanitária enfrentada na região.

Leão XIV também ouviu o testemunho de uma mulher nigeriana que relatou ter sido vítima de tráfico humano e abuso sexual durante sua tentativa de chegar à Europa.

Após escutar sua história, o papa afirmou que ela era uma bênção de Deus e merecia ser feliz.

Dirigindo-se aos migrantes presentes, declarou: “Vocês não são apenas números ou arquivos. Vocês são pessoas que deixaram para trás famílias e lares. Vocês têm sonhos que ninguém tem o direito de desprezar.”

Pedido por rotas migratórias seguras

O papa também defendeu a criação de caminhos legais e seguros para a imigração, além de uma cooperação internacional mais ampla para combater o tráfico de pessoas.

Segundo ele, é necessário ampliar os recursos destinados ao resgate de migrantes em perigo no mar e enfrentar as causas que levam milhões de pessoas a abandonar seus países de origem.

Leão XIV citou fatores como pobreza, guerras e corrupção como algumas das principais razões que forçam famílias inteiras a migrar.

Para o pontífice, não basta apenas administrar chegadas, divulgar estatísticas ou reforçar fronteiras sem enfrentar as causas profundas do problema.

Um debate que continua na Espanha

Dados oficiais citados pela reportagem mostram que as Ilhas Canárias receberam 46.843 migrantes irregulares em 2024, um número muito superior ao registrado em 2015, quando menos de mil pessoas chegaram ao arquipélago.

Segundo a ONG Caminando Fronteras, mais de três mil pessoas morreram em 2025 tentando alcançar as ilhas.

A visita foi considerada um marco por representantes de organizações que atuam na defesa dos refugiados. Juan Carlos Lorenzo, coordenador da Comissão Espanhola para Refugiados nas Ilhas Canárias, afirmou que a presença do papa reforça a defesa dos direitos humanos, do respeito e da dignidade de todas as pessoas, independentemente de sua origem.

A Espanha tem adotado uma postura mais aberta em relação aos migrantes e implementou um programa para conceder residência a mais de meio milhão de pessoas sem documentos. A iniciativa, porém, também enfrenta críticas e desafios relacionados à regularização de milhares de migrantes que ainda aguardam definição de sua situação legal.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes