Antes de chamar Messi de maior jogador, é preciso conhecer Pelé, diz autor
Em entrevista à Folha de S.Paulo, biógrafo escocês destaca que o contexto histórico e a versatilidade técnica tornam o Rei do Futebol inalcançável

Em meio ao brilho de Lionel Messi no Mundial de 2026, o jornalista escocês Andrew Downie traz uma perspectiva crítica sobre o topo da hierarquia do esporte. Autor da biografia “Epic – The Many Lives of Pelé”, com lançamento previsto para novembro, ele sustenta que o craque argentino não pode ser coroado como o maior de todos os tempos por quem desconhece o legado de Pelé. Em entrevista exclusiva concedida ao veículo Folha de S. Paulo, o escritor ressalta que o julgamento da grandeza de um atleta exige uma análise profunda de sua época e das condições em que atuou.
A importância do contexto
Para o biógrafo, apresentar o Rei do Futebol às novas gerações é um desafio de tradução cultural. Andrew Downie utiliza uma metáfora sonora para ilustrar essa distância, afirmando que “falar da importância de Pelé para o futebol nos dias de hoje é como explicar para um garoto que só ouve Spotify a importância do gramofone”.
E essa diferença se estende ao cotidiano: enquanto Pelé dividia táxis com colegas do Santos para jogar no interior paulista, o astro Lionel Messi viaja rotineiramente em jatinhos particulares para suas partidas.
Versatilidade técnica absoluta
A superioridade do brasileiro, na visão do autor, reside na completude de seus fundamentos em campo. O biógrafo argumenta que Pelé era um jogador mais versátil, pois cabeceava com excelência e era “mortal com as duas pernas”, atributos que ele considera menos equilibrados no estilo de jogo do predominantemente canhoto Lionel Messi.
Além disso, o escritor recorda que o brasileiro participava ativamente da marcação e dos desarmes defensivos, além de possuir três títulos mundiais, marca que permanece como um recorde histórico absoluto no esporte.
Contagem dos gols
Outro ponto central da nova obra é a polêmica estatística sobre a artilharia histórica. O biógrafo considera ridícula a tendência recente de ignorar gols marcados em amistosos, o que ele define como uma invenção atual que distorce a história.
Ele enfatiza que o ídolo brasileiro anotou dezenas de gols contra potências europeias como Real Madrid, Barcelona e Milan em excursões altamente competitivas. Se esses confrontos forem somados, o Rei alcança a marca de 1.283 gols, superando as estatísticas de Lionel Messi e do português Cristiano Ronaldo.
Legado histórico inquestionável
A pesquisa para o livro durou quase oito anos e envolveu mais de 250 entrevistas em dez países, incluindo depoimentos de familiares como Assíria Seixas Lemos, ex-mulher do craque. Para o autor, o Brasil das décadas de 1960 e 1970 era o epicentro mundial do esporte, comparável à relevância do Reino Unido para a música popular na mesma época ou da Califórnia para a tecnologia décadas depois. Através desse escrutínio jornalístico, ele conclui que o verdadeiro superpoder de Pelé era o seu temperamento inabalável diante das adversidades.
*Sob supervisão de Éric Moreira