Historiador e herói da Resistência, Marc Bloch entra no Panteão de Paris
Pela primeira vez na história, um acadêmico da área é honrado no templo republicano por seu legado intelectual e pela coragem na luta contra os nazistas

Nesta terça-feira (23 de junho de 2026), a França presta sua mais alta homenagem ao historiador Marc Bloch, que passa a ocupar um lugar de honra no Panteão de Paris. O evento é histórico, pois marca a primeira vez que um historiador universitário é admitido neste santuário da memória nacional, reservado às figuras mais excepcionais da política, cultura e ciência.
Considerado a maior figura da história do século 20, Marc Bloch foi um intelectual brilhante e um combatente destemido, cuja vida foi interrompida pela execução nazista em 1944.
Revolução na ciência histórica
Nascido em Lyon em 1886, em uma família judaica alsaciana fiel à República, Marc Bloch construiu uma carreira acadêmica brilhante. Ao lado do também historiador Lucien Febvre, ele fundou em 1929 a célebre Escola dos Annales, que revolucionou os estudos históricos ao integrar ferramentas da antropologia, economia e sociologia.
Conforme o veículo Euronews, sua obra não apenas renovou o estudo do passado, mas estabeleceu que compreender o “ontem” é uma exigência ética para “iluminar” o presente e defender os valores republicanos.
Resistência e sacrifício final
A trajetória de Marc Bloch também é marcada pela bravura militar. Veterano condecorado da Primeira Guerra Mundial, ele se voluntariou novamente aos 53 anos quando estourou o segundo conflito global. Após testemunhar a derrota francesa em 1940, o que o levou a escrever a obra clássica A Estranha Derrota, ele foi alvo das políticas antissemitas do governo de Philippe Pétain, perdendo seu cargo de professor e seus direitos civis.
Sem hesitar, ele entrou na clandestinidade em 1943 e tornou-se um dos dirigentes da Resistência em Lyon. Capturado pela Gestapo em março de 1944, o historiador foi torturado sob as ordens do chefe nazista Klaus Barbie, conhecido como o “Carrasco de Lyon”, e executado poucos dias após o desembarque aliado na Normandia.
Cerimônia de memória nacional
A cerimônia oficial, decidida pelo presidente Emmanuel Macron, inclui a trasladação de um caixão simbólico contendo as medalhas, fotografias e cartas do historiador. De acordo com a neta do homenageado, Suzette Bloch, a família aceitou a honraria com a condição de que a cerimônia excluísse representantes da extrema-direita, em respeito ao patriotismo antinacionalista defendido por seu avô.
Enquanto os restos mortais reais de Marc Bloch e de sua esposa, Simonne, permanecem em uma pequena aldeia no centro da França, seu legado intelectual agora repousa oficialmente no coração da nação.
*Sob supervisão de Éric Moreira