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Estrutura gigante sob o gelo da Antártida intriga cientistas

Pesquisadores identificaram uma enorme formação geológica em forma de leque sob a Antártida Oriental

A Província da Bacia em Forma de Leque da Antártida Oriental se estende entre as Montanhas Gamburtsev e a Cordilheira Transantártica, relataram os pesquisadores. - Crédito da imagem Universidade de Gênova

Uma equipe de cientistas descobriu uma gigantesca estrutura geológica escondida sob a Camada de Gelo da Antártida Oriental. A formação, descrita como semelhante a uma mão humana com os dedos abertos, conecta diversas bacias subglaciais já conhecidas da região e pode representar um dos maiores exemplos de um fenômeno tectônico chamado extensão rotacional distribuída.

Segundo a Live Science, para os pesquisadores, esse processo ocorre quando a crosta terrestre se deforma para fora de um ponto central fixo, criando padrões que lembram dedos se espalhando. As áreas entre esses “dedos” correspondem a grandes bacias triangulares que já haviam sido identificadas anteriormente, mas nunca haviam sido interpretadas como partes de um único sistema geológico.

O principal autor do estudo, Egidio Armadillo, pesquisador da Universidade de Gênova, na Itália, afirmou que reconhecer uma estrutura dessa dimensão sob a espessa camada de gelo antártica é algo extraordinário. Caso a interpretação esteja correta, a formação pode representar um dos exemplos mais claros já identificados desse tipo de deformação em crosta continental.

Bacias famosas podem fazer parte do mesmo sistema

A descoberta começou quando os cientistas perceberam que várias bacias enterradas sob o gelo pareciam irradiar a partir de uma mesma região. A partir dessa observação, a equipe analisou dados geológicos, sísmicos, magnéticos e gravitacionais da área, além de utilizar modelos computacionais para simular a formação da estrutura.

Os pesquisadores batizaram o conjunto de: ‘Província da Bacia em Forma de Leque da Antártida Oriental’.

Os resultados, publicados em 3 de junho na revista científica Nature Geoscience, indicam que algumas das mais conhecidas formações subglaciais da Antártida Oriental podem fazer parte desse sistema. Entre elas estão as bacias de Wilkes e Aurora, além da região que abriga o Lago Vostok, considerado o maior lago subglacial conhecido da Terra.

Apesar das evidências, os cientistas ainda não conseguiram determinar exatamente quando a estrutura se formou.

Possível ligação com a fragmentação de Gondwana

De acordo com a equipe, a formação pode estar relacionada aos processos tectônicos que antecederam e acompanharam a ruptura de Gondwana, antigo supercontinente que começou a se fragmentar há cerca de 180 milhões de anos.

Os pesquisadores acreditam que a estrutura pode ter desempenhado um papel importante na separação entre a Antártida e a Austrália, ocorrida aproximadamente há 70 milhões de anos, durante o final do período Cretáceo.

A hipótese sugere que a província em forma de leque teria enfraquecido determinadas áreas da crosta terrestre, facilitando a divisão das massas continentais. No entanto, Armadillo destacou que o mecanismo exato responsável por impulsionar essa deformação ainda permanece desconhecido.

Segundo ele, essa é justamente uma das partes mais interessantes da descoberta, pois abre novas linhas de investigação sobre a evolução geológica do continente antártico.

Impactos na paisagem e novas perguntas para a ciência

Os pesquisadores também apontam que a estrutura pode ter influenciado diretamente a formação da paisagem da Antártida Oriental. A oeste, ela pode ter contribuído para a elevação das Montanhas Gamburtsev, uma cadeia montanhosa comparada aos Alpes Europeus, mas completamente soterrada pelo gelo.

Já na porção leste do continente, a propagação dos “dedos” da estrutura pode ter ajudado a deformar e fragmentar as Montanhas Transantárticas, que atualmente dividem a Antártida Oriental e a Ocidental.

Além de ajudar a compreender a história tectônica da região, a descoberta poderá auxiliar futuras pesquisas sobre o comportamento da camada de gelo antártica diante das mudanças climáticas. Isso porque os processos geológicos subterrâneos influenciam os caminhos percorridos por geleiras e correntes de gelo.

Para os autores, a principal conclusão é que a Antártida Oriental talvez não seja apenas um conjunto de bacias isoladas sob o gelo, mas sim uma única província tectônica formada por um processo de deformação em escala continental. Ainda assim, eles ressaltam que a hipótese precisará ser testada por novas pesquisas.

Com mais de 99% do embasamento rochoso da Antártida escondido sob quilômetros de gelo, os cientistas acreditam que o continente ainda guarda muitos segredos geológicos esperando para serem revelados.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes